Quarta-feira, Dezembro 31, 2003

Zeitgeist

Vupt! Lá se foi, veloz, mais um ano gregoriano! Nem bem me tinha acostumado a escrever 2003 nos cheques, já vou ter que treinar outra data. Aliás, o que faço nos primeiros talões do ano é escrever o número novo em todas as folhas. Assim tenho um tempo para acostumar os ressequidos neurônios à nova grafia. Mas os cheques não são a pior parte dessa virada de calendário. Os poucos cabelos na cabeça, pelejando para se encontrar com seus irmãos no ralo do chuveiro incomodam muito mais. Como dói um cabelo no ralo... como dói pensar que você já cuidou daquele ingrato com os melhores xampus, as escovas mais suaves, os pentes mais delicados e ele agora está fugindo, célere, para aquele buraco escuro, úmido e frio. Pensar que você já o deixou passear até abaixo dos ombros, já o deixou esvoaçar ao vento insistente, e agora ele só não cai se ficar preso na escova. Se isso não é ingratidão, me digam o que é!

Outra ingratidão vem das roupas que teimam em "encolher". Aquele blue jeans novinho, boca-de-sino e nesga lateral, que agüentou estóica e heroicamente até as passeatas de "abaixo a ditadura", sob comemorativas cacetadas policiais, num átimo, resolve não mais servir na cintura. Novinho, repito! Talvez sirva, colocando-o de cabeça para baixo, pois na bainha ele é mais largo que na cintura. Sei lá... Deve ser um complô do vestuário, pois também as camisas, vez por outra, resolvem não mais abotoar. Não mais querem cobrir o "calo da prosperidade" que alguns mais cépticos insistem em chamar "árvore de cemitério", apenas porque, segundo eles, faz "sombra no defunto", os invejosos!

O calendário tem se revelado, realmente, o mais cruel dos carrascos. Dia desses, no ônibus, uma mocinha até mesmo se levantou e me ofereceu seu lugar. Alguém pode ver nisso um trivial gesto de cortesia, não eu! Afinal, quem ela pensa que é? Alguma criança? Quem ela pensa que eu sou? Algum ancião? Não, senhora! Sentei-me agradecido, mas sob protesto íntimo e silencioso! Ora! Respeitem meus cabelos brancos! Os poucos solidários companheiros que ainda restam, impávidos...

Talvez a garota estivesse com furúnculos na "zona sul" e precisasse refrescá-los de tempo em tempo. Sim. Deve ser isso. Bem que sua pele me pareceu meio gordurosa em excesso. Ela é que não conseguia ficar sentada. Pronto. Está honrosa e satisfatoriamente explicado o embaraçoso episódio. Só não sei por que as pessoas ao lado se afastaram para que eu me sentasse, mas, tudo bem!

Assim também como não sei por que os filhos dos amigos e conhecidos insistem em me chamar "tio" e os balconistas "senhor". Deve ser algum impenetrável código lá deles. Vá entender essa meninada... Que não me chamem, entretanto, "Tio Sukita"! Isso nunca! Recuso-me a tão aviltante papel.

- Tem horas que você sente a velhice chegando? Perguntou-me, capciosa, a elegante amiga que nasceu no mesmo ano que eu.

- Claro que não! Respondi sem muita convicção, encolhendo a barriga, automaticamente.

Completei afirmando que algumas coisas eu rejeito, a priori, por pura coerência. Freqüentar grupos de dança de salão e rodadas de bingo, por exemplo. Além de usar óculos bifocais e tintura nos bigodes! Não me ofendam ainda mais, com propostas desse tipo, pois espero ver meu tempo chegar com um mínimo de dignidade. A propósito, já reparam na mania desse povo de levar os velhinhos pra dançar e jogar bingo? O cidadão nunca "balançou o esqueleto" na vida, mas assim que lhe pespegam o epíteto de "idoso", resolvem que tem que virar um "pé-de-valsa", da noite para o dia, na marra. E dê-lhe Roberto Carlos nos aparelhos auditivos, castigo imérito e aviltante para o infeliz pagador de impostos. Me poupem de tal falta de imaginação, quando chegar minha hora!

Mas nem tudo são espinhos nesse vale de lágrimas (esta frase está na página 58 do livro de ouro dos lugares-comuns). O Zeitgeist ('espírito do tempo', para quem não sabe alemão) também nos traz algumas boas coisas. Não faço idéia de quais sejam, mas quero, de todo coração, acreditar na sua piedade! E que a terra nos seja leve. Daqui a muito tempo, aliás...

Feliz ano novo, sobrinhos!

Terça-feira, Dezembro 30, 2003

Para superar um mau momento

Não se desespere, menina.
Ninguém merece seu desespero.


Não chore, menina.
Poucos merecem suas lágrimas.


Não fique triste, menina.
Quase ninguém vale uma tristeza.


Sorria, menina.
Todos merecem um sorriso.


Alegre-se, menina.
Muitos merecem sua alegria.


Fique feliz, menina.
Alguns merecem fazê-la feliz.


Rejubile-se, menina.
Você merece um novo amor!


Não se esqueça que
"A vida é curta, mas é larga"...

Segunda-feira, Dezembro 29, 2003

O misterioso caso da memória noir

Hercule Poirot? - Não. Ele se ocupava de assassinatos. Insperor Maigret? Miss Marple? - Também não. Outros que tinham mais a ver com mortes. Sherlock Holmes? Talvez. Este se interessava por um bom desafio, qualquer que fosse sua natureza; poderia, sim, tentar recuperar objetos sem valor econômico levados por distraídos amigos do alheio... Estou precisando do auxílio de profissionais dessa natureza para esclarecer o mistério do desaparecimento de objetos triviais ligados à minha memória, de natureza já tão falha.

Fotos, por exemplo. Eu que sempre tive fotografia como hobby, quase não tenho fotos. O que significa que, um dia vou me deparar com a absoluta falta de memórias, pois o que mais são nossas fotografias senão pedacinhos de nossas vidas congeladas no tempo e impressas em papel? E como é bom ver fotos antigas! Bom... eu, ao menos, gosto muito. Meu álbum de fotografias predileto sempre foi uma caixa de sapatos. As fotos são colocadas ali e, em breve, estão todas misturadas. Datas, temas, pessoas, locais, eventos, tudo se mistura e a lembrança salta de um fato ao outro, de um acontecimento ao outro, de um amor ao outro, emocionando, revivendo, provando sensações que resistiram ao tempo pelo simples fato de terem sido fixadas no papel.

Nunca gostei das fotografias arrumadinhas, coladas uma ao lado da outra, numa prisão cronológica. Quanto prazer proporciona uma caixa de fotografias derramada sobre uma mesa ou um tapete, com as pessoas à sua volta remexendo, observando, perguntando, explicando... alguém sempre diz que detesta aquela tal foto. Saí muito isso, muito aquilo... mas essas são as melhores. São os instantes em que as pessoas são mais reais, mais vivas. As digitais não têm esta magia. Sua mágica se dá em outro plano; não têm existência palpável. São mágicas apenas pela facilidade de sua multiplicação e transmissão pelo éter.

Andei procurando certas fotografias e não as encontrei. Minha caixa está, inexoravelmente, desfalcada. A quem mais interessaria a minha memória? Como pode alguém viver a memória alheia? Quando eu tinha cinco ou seis anos, descobri que quase todas as fotografias em que eu aparecia haviam sido destruídas. Cada vez que eu tinha um desentendimento com meu irmão mais velho e que ele não conseguia me dar uns cascudos pela interferência de algum adulto ou por eu ter conseguido "passar-lhe a perna" de alguma forma, ele ia à caixa de fotos da minha mãe e rasgava uma de minhas imagens. O que significa que devo ter uma ou duas fotos de quando era criança, pois vivíamos às turras.

Só que agora ele não tem mais acesso à caixa. Mesmo que tivesse, não temos mais aqueles atritos de criança. Infelizmente, não somos mais crianças. Então, como explicar o emagrecimento da minha coleção? Claro está que, de vez em quando, sinto falta de outras coisas, além de fotos. Um livro, um disco... Mas elas é que são insubstituíveis. E seu valor só existe para mim. Como voltar no tempo para reunir os amigos numa época mais ingênua e capturá-los, novamente, em uma figura em preto-e-branco? Impossível.

Isso que está acontecendo é uma coisa cruel, se querem saber. Desde quando? - Ignoro! Quem? - Cherchez la femme...

Domingo, Dezembro 28, 2003

A maçã do amor

Minha amiga blogueira me contou um caso de porta de banco, com o maior medo de que eu lhe roubasse a história e postasse antes dela. Não corre esse risco, Tia. Pode contar. O caso é todo seu. Depois iremos todos lê-lo. Até porque, já tirei dele a idéia que precisava, pois me lembrou do episódio no ponto do meu ônibus.

Esperava o "latão", ansioso para chacoalhar um pouco até o trabalho, quando sentou-se ao meu lado, no abrigo, uma figurinha daquelas preciosas. Na hora eu já pensei em escrever algo sobre ela, mas estava muito entretido com meus famosos fones de ouvido para pensar em outras coisas. Só que a madama em questão queria, a todo custo, freqüentar as páginas deste blog que vos fala, como ficará demonstrado. Não poderia, portanto, negar-lhe tão subida honra, não é? Perguntou-me como faria para chegar à Universidade. Expliquei-lhe, pacientemente, que teria algumas alternativas e descrevi quais.

Parece, entretanto, que minhas minuciosas instruções não inspiram muita confiança em senhoras perdidas, pois acho que ela não acreditou em mim, e passou a parar todos os coletivos que transitavam no momento. Confusa, fazia-os abrir a porta e perguntava ao motorista uma coisa que não era bem o que ela queria saber. Claro que os motoristas respondiam ao que ela perguntara, pois não poderiam adivinhar qual era, realmente, o destino de tão aflita personagem.

Já estava chamando a atenção das demais pessoas que foram chegando ao ponto, aquela figura que já será descrita, parando todos os ônibus, irritando passageiros e iniciando um pequeno engarrafamento. A inquieta em questão, gigantesco apetite, pelo que parece, era uma massa só, que juntava cara redonda, peitos, bunda e barriga. Tudo enorme e mal-amanhado em uma camiseta de manequim menor que o da proprietária, equilibrando-se sobre uma dessas bermudas que gordas adoram usar: de malha e bem arroxada nas pernas. Tudo em tons de vermelho, que parece ser, atualmente, a cor predileta daquelas amantes da macarronada com tudo.

Então fica assim: umas perninhas curtas e finas espetadas naquela imensa bola vermelha que cresce a partir dos joelhos. Olhando de repente, é ou não é uma gigantesca maçã do amor que fugiu da barraquinha do parque de diversões? E olha que eu não falei nada da bolsinha de crochê, pendurada no braço por uma alça de mais de um metro, que ficava batendo em tudo e todos, e que servia para abrigar um indefectível celular. De que cor? - Cinza! Vermelho já seria tripudiar. Laranja era a lona plástica que nossa querida maçã trazia nos braços, vá se imaginar para quê.

No final das contas, depois de tantas peripécias, de tantas paradas de ônibus, de tanto saltitar de um lado para o outro, correndo o risco de ser atropelada, não é que a nossa figurinha impoluta acabou tomando o ônibus errado? Fazer o quê?...

Antes de terminar, quero registrar que não tenho nada de especial contra quem esteja morbidamente acima ou abaixo do peso ideal, pois isso é problema ou escolha de cada um. Apenas fico muito indignado com a agressão cometida contra as mais comezinhas regras da estética e, por conseguinte, agressão ao olhar desavisado e tão sofrido dos usuários do sistema de transporte coletivo. Aí já é quase uma questão de saúde pública, e vale o meu protesto...

Sábado, Dezembro 27, 2003

A carta do estranho

Um estranho caderno amarelado, encontrado entre guardados de um sótão empoeirado, trazia entre anotações e esboços de plantas baixas uma carta incompleta, com longos trechos rabiscados, e numa caligrafia difícil e desconhecida. A curiosidade da sua tradução leva-me a transcrevê-la, na expectativa de identificar data, remetente ou destinatário:

Querida Magali J.! Escrevo-lhe de uma mesa de bar em Le Havre, onde o peso da solidão é quase insuportável. Pedi um café e um conhaque, mas acho que não beberei nenhum deles, intragáveis no meu atual estado de espírito. É que assim deixam-me em paz com meus pensamentos, planos e recordações. As últimas luzes da tarde de outono tingem a calçada da rue Béranger de tons avermelhados. O cheiro de maresia é forte em toda parte e não se vê vivalma na rua.

Como sempre nessas situações, escrevo-lhe longas cartas que nunca enviarei. Meu navio só deve partir amanhã à tarde, primeiro para Portsmouth, e não pode haver alguém mais triste do que eu. Volto deixando para trás Paris e o amor de um ano. Pela frente tenho o Brasil e não sei que desemprego encontrarei. Com certeza meus amigos estarão todos cansados, casados ou ambos. Minhas namoradas devem ser suas gordas esposas cuidando de crianças no subúrbio. A casa da avó deve ter encolhido ainda mais. Além de alguns livros, não levo nada na bagagem, assim como nada trouxe. Apenas a sensação de que a busca não terminou certo. Não sei se ainda conseguirei viver das aulas para estudantes cheios de ilusões e vazios de esperança.

Aproveitei as noites de inverno para fazer uma ou duas pneumonias e os dias de primavera para longos passeios às margens do Sena. Mas não é isso que todos fazem, inutilmente? O Bateau Mouche continua lá, apinhado de turistas japoneses. A comida não foi tão boa quanto ouvíamos falar, pois o dinheiro nunca foi suficiente. E continuo recusando-me a comer lesma: convicção filosófica! O vinho é sempre bom, mas nunca tomado com a reverência que mereceria. Mas não terei saudade dele. Terei de algo? Com certeza, de muita coisa!

Sempre tive, isso sim, muita saudade de você e das nossas conversas até tarde da noite, sentados na sarjeta, sob a luz do poste da esquina. Quanta ingenuidade, quanto latim perdido em projetos e declarações de princípio que sempre soubemos nunca iríamos manter. Althusser ficou louco, matou a esposa e, muito tempo antes disso, desisti dos planos daquele assalto. Nunca nos respeitariam a ponto de entregar o dinheiro para o asilo de velhos. Atualmente, parece que a única diferença entre esquerda e direita é que uns vão à missa das sete e outros à das dez... Aquele gato rajado ainda fica sentado no muro defronte? Tenho vontade de atirar-lhe uma pedra imaginária para que não fique cruzando assim minha memória vadia e errática, atrapalhando o fio da minha narrativa.

Soube que você, finalmente, cortou os longos cabelos de "Mortícia Adams". Teria sido a tesoura do destino ou apenas a pressa de aprontar-se mais rápido a fim de pegar a condução lotada das sete horas? Espero que não o tenha vendido para dele fazerem perucas de mau gosto na Galeria Ouvidor.

Por falar na Galeria, será que já trocaram o óleo de fritura daquela pastelaria da entrada? Dizem que restos do Titanic estariam no fundo daquela panela desde a década de vinte. E que isso é o que daria o sabor especial aos pastéis de nada que comíamos ali nas madrugadas boêmias, voltando de algum lugar desinteressante. Veneno para as veias, é o que dizem os europeus.

Vou ter que interromper e procurar outro lugar para passar o tempo até a hora da partida. Já me incomodam muito, estranhando as bebidas intocadas. Além disso, na rua há pouco deserta, começou o desfile de um circo que parece ter brotado do chão. Estou vendo passar um urso vestido de saiote, palhaços virando cambalhotas propositalmente desajeitadas, uma mulher de idade indefinível, de pé nas costas de um elefante coberto de ouro, um camelo (ou seria dromedário?) com um ar tristonho, uma banda de música sobre a carroçaria de um velho caminhão... Prometo procurá-la tão logo chegue e descubra seu paradeiro.

Beijo saudoso, V.

O sonho e o trauma - um estudo de caso

Mau humor não pode durar muito, quando se tem uma turma de "catraias" como eu tenho e que encontro vida afora. Tem gente que fala que essas coisas só acontecem comigo e eu, humildemente, sou tentado a concordar. Hoje, plena uma hora da tarde, no calçadão da Deodoro, quase trombo com algo gigantesco: figura rotunda, roupa de um vermelho vivo e uma singela golinha branca, emoldurando um rosto rosado e redondo. - Papai Noel! Pensei eu, imediatamente, embora achando que faltava a barba e que o natal ainda está meio longe. Já me preparava para entregar-lhe minha cartinha com a lista dos presentes que quero ganhar este ano, bem comportado que fui, quando, olhando melhor, reconheci, abismado, a mulher de um grande amigo, que andou perdendo uns poucos quilinhos e muito do sentido estético. Seu nome, não vou declinar aqui, pois me apeguei aos meus dentes e não pretendo ficar sem eles assim por pouca porcaria, é óbvio. Cuidado, entretanto, bolinhas: a escolha do figurino pode ser uma declaração de caráter!

Esqueçamos este embaraçoso incidente e passemos ao próximo, pois à tarde, quando abri minha caixa postal, encontrei um email capixaba de uma das minhas amigas queridas, que me fez chorar de tanto rir. Antes, eu havia enviado a essa, que não vale o milho que come, o link para que ela visse uma determinada placa, ou melhor, um outdoor pra lá de ridículo, pois ela é grande contribuinte da coleção. Com sua anuência, vou transcrever um trecho da mensagem, para que todos vejam e sofram, solidariamente, o infortúnio escatológico da pobre criatura de Deus:

...Menino, raramente eu sonho, mas faz coisa de uns 4 meses, sonhei que estava em Hollywood, dentro de um cinema, sentada ao lado do Richard Geere. Eu estava com um vestido longo, branco, e estávamos para assistir à estréia de um filme dele. No cinema só estavam pessoas chegadas a ele e euzinha, pelo que me pareceu, era a namorada. Maravilha! Já pensou?

Bom, logo quando ele passou o braço sobre meus ombros nus e ia me sussurrar algo bem doce ao ouvido, acordei com o maridão ao meu lado, careca, barrigudo, soltando pum e roncando como um serrote amplificado. O barulho era infernal e, do cheiro, nem é bom falar. Não resisti, dei dois tapas nas costas dele e falei:

"- PAPAI DO CÉU! O sonho não precisava ser tão bom, nem a realidade tão degradante".

Menino, isso que é marido ciumento! Eu nunca antes tinha acordado com tamanha sinfonia, nem com aquele perfume maaaaravilhoooso. Também nunca tinha tido um sonho daqueles, foi super romântico. Suspiros...

Me deu vontade de jogar o canalha pra fora da cama, a pontapés. E depois, quem falou que eu consegui dormir, de novo? O homem estava atacado, naquela noite. Tive que passar Vic-vaporub sob o nariz, para suportar. Snif...

Nunca mais tive um sonho parecido. Minhas defesas inconscientes devem estar bloqueando. Acho que fiquei definitivamente traumatizada.

Pois foi bem feito! Quem mandou trair o pobre coitado, ainda mais depois de lhe servir aquela poderosa feijoada com acompanhamento de repolho e sobremesa de batata-doce?


Ah! Sim! Ia me esquecendo. O maldito outdoor em questão é este. Bye-bye, mau humor!

Quinta-feira, Dezembro 25, 2003

Na sombra do turnedô

Chic au dernier, ela é sobrinha da avenida em que faz caminhadas e neta da rua onde mora. Genealogia que lhe dá ascendência sobre o comum dos mortais, lhe garante livre trânsito nas mais finas rodas mas também obriga a comportamentos não naturais, em determinadas ocasiões.

É intrinsecamente honesta. Uma honestidade que precisa ser exibida e demonstrada a cada instante, para se consolidar e transmitir às novas gerações. Não é pouco e não é fácil. Vez por outra, oportunidades de exercer a popular Lei de Gerson ("- A gente tem de levar vantagem em tudo, certo?") surgem e precisam ser descartadas, não sem um suspiro melancólico, para não macular um histórico de retidão que pretende levar um dia como bilhete de ingresso às congestionadas portas do éden.

Porém, hace días que no ve más que sombras a su derredor. Como em épocas de festas em geral e natalinas em particular, pois "- Últimamente Juan se há convertido em mi sombra", como explicou àquela turista no supermercado, entre uma firme cotovelada na costela da outra e um discreto puxão na última bandeja de frios disponível.

Pois foi nessa ocasião que mais sentiu o peso da honestidade sobrepor-se à ligeireza da aplicação da lei mais popular. Escolhendo as carnes que melhor se encaixavam no orçamento familiar sempre corroído pela incúria dos demagogos de plantão, notou que as bandejas de "tournedos" estavam rotuladas como "filé de frango", muito mais baratos. Determinou a su sombra que comunicasse ao responsável aquele erro de etiquetagem. Obediente, lá foi ele, com aquela pilha de bandejas, comunicar ao rapaz do balcão, que aquelas etiquetas estavam trocadas de forma a causar prejuízo ao estabelecimento.

Foi nesse instante que, surgindo do nada, uma típica descendente dos pescadores e rendeiras da ilha adiantou-se, tomou as bandejas das mãos do afável acompanhante e bradou com seu sotaque repicado:

- Se não está com o prazo de validade vencido, vou levar tudo, pois o que vale é o preço da etiqueta! Não tenho culpa do erro deles, não tem?

E rebolou apressada em direção à quilométrica fila dos caixas, deixando nossa personagem com cara de "Ah! É?", furiosa por dentro por não ter aproveitado a pechincha, mas impassível externamente, pois a finesse familiar falava altíssimo naquele momento. Descontrolou-se mesmo foi quando a rival turista, que a tudo observava, comentou, consoladora:

- Tienes mala sombra!

- Tenho sim! Tenho "mala" e tenho "sombra"! E as duas são a mesma pessoa, se a senhora quer saber: é aqui o "meu marido Oscar", que nem é mais meu marido e nem se chama Oscar. Mas anda mais comigo agora que quando éramos casados! Descontou ela nos dois, atrevida, sem perceber, naquele momento de fúria, que o que a castelhana queria dizer é, simplesmente, que ela tivera "má sorte".

Para salvar o orgulho duplamente ferido, comunicou o fato ao gerente da loja e saiu pisando duro, cabeça erguida e com uma solitária bandeja de "tournedos" com preço correto, pois "gosto das coisas feitas honestamente!" E aquela deliciosa carne nem estava na lista de suas compras daquele dia de orçamento reduzido. Ocupou o espaço de tudo mais que precisava levar...

Mas a reputação de retitude moral continuou intata, per omnia saecula saeculorum! Ao menos isso...

Feliz aniversário

Acordou naquela manhã de primavera com um estranho sentimento. Não estava propriamente triste. Apenas difusamente angustiada. Aquele sentimento não se definia bem, tornava penoso o levantar-se. Quase voltou para a cama, mas tinha obrigações. Dinâmica, tinha muitos afazeres. O dia seria especial, queria muitos prazeres. Não havia tempo para sensações. Um banho!

Quem era aquela senhora que agora a olhava de dentro do espelho? Como podia ela, quase uma criança ainda, estar ali encarando aquela decadente senhora? Os olhos se pareciam com os seus. Também a linha dos lábios, o sorriso, os gestos... Não podia ser. Molhou o rosto, queria despertar, mas a senhora também se molhou, em resposta. Aquele cabelo, curto como gostava de usar, agora parecia sem vida, tingido vulgar e descuidadamente, mostrando tonalidades que não eram as suas. A pele frouxa, maltratada pelo tempo, não guardava semelhança com a sua, tão firme e delicada.

Um banho quente e demorado se encarregaria de afastar aquele fantasma de estranha impressão... E aquelas roupas que usava, de onde vieram? Grandes peças de qualidade inferior e gosto duvidoso? Aquilo não podia ser seu. Também não podia ser seu aquele corpo, aquelas formas amplas. Aquela opulência poderia combinar com a senhora do espelho, mas não com ela, tão esbelta a ponto de quase se lamentar magra demais.

A angústia difusa agora cedia lugar a uma palpitação crescente, a uma ansiedade que aumentava à medida que, a cada instante, mais tomava consciência de estar, involuntariamente, ocupando um corpo pesado, desconhecido. Um corpo que não era o seu e de que não estava gostando nem um pouco.

Tentou lembrar-se da noite anterior e teve dificuldade. Não se convencia de que suas lembranças estivessem corretas. Lembrava-se de decisões dolorosas que tivera que tomar e temia que elas se projetassem para seu futuro. Mas aquele futuro num banheiro acanhado, lutando contra uma aparência corpulenta não parecia ser o seu. Não podia ser. Não queria...

Saiu enrolada na toalha e não reconheceu a casa, embora alguns objetos fossem vagamente familiares. Demorou-se um instante a observar cada centímetro, cada vez mais confusa, cada vez mais angustiada. Queria acordar, pois aquilo deveria ser um sonho ruim. Algo que comera, com certeza!

Mas o frio do piso em contato com seus pés descalços não parecia ser de sonho. Lá de fora os ruídos matinais eram familiares, assim como o aroma de café recém coado vindo da casa ao lado, como sempre. Decidiu investigar mais e procurou seu quarto. Uma cama larga, que não lhe pareceu familiar, estava muito desarrumada. Isso era familiar. Sempre gostara de enrolar-se em todos os lençóis. Mas para quê uma cama tão grande, se ninguém mais a usava agora?

A próxima surpresa foi o armário cheio de roupas que não coincidiam com sua imagem, com a imagem que tinha de si. Tudo tinha um estilo indefinido, que não era o seu e, ao mesmo tempo, também não poderia ser da dama do espelho, a menos que esta não se importasse com a aparência. Não gostou de nada do que viu, mas tinha que se vestir. Precisava sair, precisava trabalhar, encontrar-se real, encerrar aquele pesadelo.

Uma insistente campainha a estava incomodando, notava agora. Olhou ao redor em busca da sua origem e viu um telefone branco na mesinha de cabeceira. Demorou um instante enquanto se convencia de que era ele que tocava e que tinha que atendê-lo. Receosa, levou-o ao ouvido e reconheceu, do outro lado da linha, uma distante voz masculina, vinda do passado:

- Bom dia, Rebeldia! Feliz aniversário! Como se sente estreando os cinqüenta aninhos?

A realidade a atingiu como um corisco. Seus joelhos cederam e ela caiu nua na cama desarranjada, soluçando baixinho, convulsivamente, como se uma pilha elétrica estivesse ligada a seu corpo, enquanto se cristalizava a certeza kafkiana de que a senhora do espelho havia tomado posse da sua juventude...

Quarta-feira, Dezembro 24, 2003

Controle

Josias é um homem normal, que tem alucinações e pesadelos desde que se entende por gente. Toda noite tem os sonhos mais terríveis, em que maníacos sádicos e sanguinários o perseguem, matam e esquartejam, criando um clima de terror que pararia o coração do mais valente dos heróis. Josias acorda tranqüilo e calmo como se tivesse sonhado com plácidos campos verdejantes salpicados de multicores borboletas. Ele sabe que tudo aquilo é criado por sua mente e que ele consegue controlá-la.

Josias não pode tomar, sequer, um copo de vinho ou de outra bebida alcoólica que lhe vêm as alucinações mais pavorosas. Delirium tremens terrível, monstros esverdeados com línguas de fogo, pata de cabra, escamas de dragão, asas de morcego e rabo de mula. Criaturas com cobras em lugar de cabelo, olhos de lagarto e gosma escorrendo pelos cantos da boca. Josias não se abala. Aguarda o efeito da bebedeira passar e explica que tudo aquilo foi criado por sua mente criativa e que ele é quem a controla.

Josias tem delírios de toda natureza a qualquer instante. Imagina as cenas mais pavorosas e sangrentas. Multiplica qualquer sugestão fabulosa, a ponto de quase perder a respiração em meio às crises mais turbulentas. Elfos e gnomos o observam a cada passo. Seu banheiro é povoado por seres dessa natureza, sempre à espreita, com seu aspecto malicioso. Josias não se altera, pois sabe que tudo aquilo é fruto da sua mente e como é ele quem a comanda, não há motivo para preocupação.

A casa de Josias é uma mistura de fantasias mais ou menos assustadoras, dependendo do seu estado de espírito no momento. Nada ali é real, no sentido que todos reconheceriam. Aspiradores com cabeça de elefante; facas que voam e se cravam nas paredes que, por sua vez, sangram e se tingem de vermelho; poltronas que tragam quem nelas se senta, atirando-o para uma dimensão fantástica. Seres inanimados que criam vida, arrastam-se uivando e inspirariam terror no mais destemido aventureiro. Josias não se deixa impressionar, pois sabe que tudo é fruto dos desvarios da sua mente fértil, que ele controla.

Mas com todo esse equilíbrio, Josias tem medo de sair de casa. Reluta, observa, cheira e apalpa, apavorado com os ruídos, movimento, cheiros, luzes, animais e pessoas. Não sairia se não fosse necessário. Afinal, ninguém sabe quem controla a realidade...

Anacronismo

As crianças aí até podem duvidar de mim, mas afirmo que há algum tempo existia uma coisa chamada "visita", que as pessoas faziam umas às outras. E não era para vender alguma coisa, para convencer a mudar de religião ou a votar no calhorda do meu parente. Não. As pessoas se visitavam apenas pelo prazer da visita. Vizinhos faziam muito isso...

Durante esses eventos de configuração estranha, hoje em dia, as pessoas - pasmem - conversavam. É isso mesmo, minha senhora! As pessoas conversavam! Falavam do tempo, falavam dos filhos, falavam do trabalho ou daquela doença misteriosa que levou o fulano em apenas três meses... Falavam e os outros ouviam. O que pode parecer ainda mais estranho.

Uma reminiscência daqueles tempos estranhos ainda resiste, anacrônica, nas casas atuais: estou falando da "sala de visitas". Tinha esse nome porque era ali, preferencialmente, que as visitas eram recebidas. Ali serviam-se bolachinhas, café ou chá às visitas, que, por sua vez, vestiam as melhores roupas para ir à casa dos outros.

Sentava-se e conversava-se. E havia assunto! Não é brincadeira minha. Havia assunto, de verdade... As conversas varavam horas, até que chegava o momento dos donos da casa se recolherem e as visitas iam para as suas próprias casas.

Decorrência disso era um outro costume, também muito estranho. Tenho testemunhas que comprovam o que vou dizer: quem recebia uma visita, tempos depois, pagava a visita, visitando, por sua vez, quem os havia visitado. Por que eu iria inventar uma coisa dessas, garoto? É verdade! As pessoas visitavam e eram visitadas.

Quando isso se repetia muitas vezes, acabavam por descobrir alguma atividade que agradava à maioria e a executavam em conjunto. Por exemplo, era comum uma atividade de congraçamento social chamada "jogo de cartas". Consistia em reunirem-se diversas pessoas e, por puro prazer, jogar cartas e conversar, durante horas seguidas. Canastra, buraco, pif-paf, eram nomes de alguns jogos de cartas, disputados amistosamente. Isso quando não havia número suficiente para um jogo mais curioso, chamado víspora, composto de cartelas com números e pedacinhos de madeira com os mesmos números, colocados em um saco. Os pontos eram marcados com milho ou feijão. Espécie de bingo que ainda não fora descoberto pela máfia...

Eu sabia que iam me olhar com essa cara de espanto. Mas podem pesquisar. Existiu mesmo essa coisa chamada visita, assim como existiu uma outra coisa de que talvez não tenham ouvido falar: conversas em família. Mesmo sem visitas, havia ocasiões em que as pessoas de uma mesma família conversavam! Eu sei que vão querer me colocar em camisa de força, mas uma dessas ocasiões era à mesa de refeições, quando todos sentavam para almoçar, jantar ou lanchar.

Ei! Aonde vão? Voltem aqui! Eu juro que é verdade... Isso tudo existiu mesmo! Não estou inventando e nem ficando louco. E nem tem tanto tempo assim! Voltem!...

Terça-feira, Dezembro 23, 2003

Aflição

Caminhar contigo trilhas etéreas,
Meu mar, teu mar,
Espumas brancas quebrando as pedras.
Olhar juntos, desfrutar a paisagem,
Teu ar, meu ar,
Respiro ofegante a tua ausência.
As flores de cores raras
Ou banais, crescendo em touceiras no quintal,
Teu sorriso foi minha alegria,
Flutuo ao lembrar.
Caprichosas formas de algodão,
Movimento, ritmo, calma
No teu azul que também é meu.
Meu medo é teu medo:
Tenho medo que o tenhas.
Ser pássaro de canto perfeito
Cujas penas, entretanto, estão por dentro,
Pousar em tua varanda, furtivo malfeitor,
Observar-te fugidia musa.
Depois cumprir a sina dos afoitos,
Prisão ou degredo em ilha atlântica.
E o dilema permanente:
Salvador Dali - Soft Watch at the Moment of First Explosion
Estrela, estrela que encontrei e perdi
Como voltar o relógio, evitar a insensatez?

A sociedade secreta

Na verdade, não é uma sociedade secreta, como ela disse. Está mais para uma "confraria de tolos", mas mesmo isso, não é completamente verdadeiro. Hoje eram apenas vinte e três convidados para o lanche. Pão de queijo e nega maluca para todos. Isso que a ala feminina quase toda se declara "em dieta". Para variar.

Uma dieta que não resiste à primeira fornada, diga-se. Uma a uma, todas capitulam, derrotadas pelo irresistível aroma. Era uma batalha perdida de antemão... Mas as iguarias não são a razão principal dos encontros semanais. Uma amizade que, entre dois dos convivas já dura mais de sessenta anos: essa é a razão. Haveria alguma melhor?

Embora o grupo mais numeroso situe-se ao redor dos vinte e cinco anos, é a ala sênior que tem direito à mesa principal e ao serviço mais dedicado. São estes também, os que têm os melhores casos, aqueles que, de tanto serem repetidos, já provocam piadas entre os mais jovens. Mas também são esses os que surpreendem, vez por outra, com uma reminiscência ainda não compartilhada, com uma informação que faltava, com um comentário esclarecedor. Hoje, por exemplo, entendi a razão de os pianistas não terem L.E.R. e os digitadores, sim. Detalhes de postura.

Minas Gerais é o elemento comum a todos, pois mesmo os que nasceram na ilha têm, na ascendência, as ligações com a terrinha que lhes garantem um lugar à mesa. Mas a sociedade não é secreta. Aliás, nada ali é secreto. Nem poderia ser, entre pessoas que se conhecem há tanto tempo e se freqüentam com tanta regularidade.

Mistura-se a amizade construída com as memórias de infância. Quando poderia imaginar que algum dia conviveria com personagens de gibis que lia, na infância, na casa do meu avô? Quem poderia dizer que o jabuti não poderia ser mesmo outro que não o quelônio mensageiro da historinha se, de tão calmo, consegue dormir em meio à conversa? De onde teria vindo a inspiração para retratar aquela mulher ultra falante como uma fêmea de joão-de-barro? Simplesmente perfeito. Toda semana tenho que me conter para não lhes pedir um autógrafo no meu velho gibi. Acho até que, na próxima semana, não vou mais me conter. Afinal, podemos ficar sem eles, como já ficamos sem outros... Além disso, é por uma causa justa.

Uma rosa para a anfitriã e outra para a maria-de-barro foram a forma silenciosa que encontrei hoje para agradecer-lhes pelo privilégio do convívio com parte da Turma do Pererê!

Segunda-feira, Dezembro 22, 2003

Meu reino por um antiácido

Que o bom Deus não me reserve, na velhice, uma neta como ela! Muito bonitinha, mas como é crítica...

- Ai! A minha única tristeza é que, depois ter comido aqui hoje essa comida deliciosa, depois de amanhã vou ter que encarar a maionese de bacia da minha avó!

- Bacia? Como é isso?

- Minha avó, coitada, todo ano faz, com muito amor e carinho, uma bacia cheia de maionese de batata com Helmann's. Alisa a superfície e escreve com mostarda "Feliz Natal!", a caligrafia tremida. Depois faz uma estradinha curva com ervilhas e pingos de ketchup, levando até um cogumelo tridimensional gigante, feito com um ovo cozido e uma tampa de tomate. Ninguém merece! Acho que neste ano vou ter que adoecer para escapar...

E esta é apenas uma das muitas histórias que se tem que ouvir dessa nova geração niilista, pós-moderna e auto-centrada. A salvação é que as histórias dos demais convivas não é tão egocêntrica e, no fim das contas, a diversão é garantida. Mesmo que um dos casos dê conta de um temporal dentro da casa da espevitada anciã que se esqueceu de desligar a bomba d'água.

O final de semana começou com a corda toda, já na sexta-feira, quando fui, praticamente, "convocado" para um churrasco que rolava solto no vizinho. Era a comemoração de final de ano para os "excluídos da confraria". Quem não viria no sábado, veio na sexta-feira. Não que haja qualquer rejeição a qualquer grupo de amigos, mas nem todos ficam à vontade na reunião em que alguns são amigos há mais de 30 anos e outros nasceram nela. Assim, para agradar a gregos e baianos, nossos anfitriões fazem diversas comemorações seguidas. Triste isso, não?

A esbórnia começou naquela noite. Surgiu no meio do papo a diferença dos atuais alunos do R. e aqueles que fomos no tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça. Claro está que me fizeram lembrar da história de uma certa calça roubada que nego até a morte, mas que, constrangido pelas circunstâncias, contarei dia desses, sem que seja preciso para isso recorrer à tortura medieval.

No sábado de bastante trabalho, a noite mostrava o potencial que teria quando uma caridosa alma levou, para amenizar o afã do pobre e solitário cozinheiro, uma garrafa de delicioso vinho com o selinho mágico "Produit de France". Tomando aquele nectar em ótima companhia o desinfeliz, se algum dia foi pobre, nem conseguiu mais se lembrar. A memória, de si já frágil, sucumbiu de vez, afogada!

Depois os deuses das águas não pouparam chuva. Chovia a "pícaros", como dizia aquele que também confundia "poliglota" com "troglodita" e "filatélico" com "sifilítico". Mas ao menos os deuses da culinária estavam bem apaziguados após o sacrifício incruento das garrafas de vinho francês e português, ali mesmo abatidas sem perdão, piedade ou remorso. E o rango, respondendo a tais desígnios, modéstia às cucuias, estava mesmo melhor que bom, melhor que ótimo. Estava "bótimo". Todos puderam comer bem e muito. O que mais se pode desejar, nessa altura do campeonato? Pouca coisa, certamente.

Convivas, um capítulo à parte, contando com o auxílio luxuoso de três aquisições de vulto que, além de abrilhantar o evento com uma conversa de altíssimo coturno, ainda não se fizeram de rogadas no auxílio à anfitriã nas lides pós acepipes, além de, com velocidade supersônica, escrever loas ao evento, para registro e conhecimento da posteridade.

Com tudo isso, quem se importa em acordar tarde no domingo e ter que encarar, no almoço, o "já-te-vi" da noite anterior? Eu não, com certeza! Que venha mais do mesmo, sempre...

Oh! Céus!

Eu gostava de ficar sentado ali na minha varandinha, de frente para o morro sempre muito verde, observando os voadores lá no alto, saltando para planar por horas seguidas. Binóculo à mão, vez por outra, aproveitava para observar também um passarinho, um lagarto, qualquer dessas coisas bastante triviais.

Enquanto isso, lá no alto, planando silenciosos, urubus, paraglides e asas delta aproveitavam as colunas térmicas e, algumas vezes, em lugar de se dirigirem para as margens da Lagoa, planavam até aqui, perigosamente, se aproximando da cidade.

Agora tudo mudou. Tenho um monstro de concreto do outro lado da rua. Está definitivamente bloqueada a visão dos dezessete tons de verde que um dia distingui na vertente oeste do Morro das Sete Voltas. Restam-me as nuvens. Acho que vou ter que virar caçador de nuvens. Hoje, pela manhã, tentei. Coloquei uma espreguiçadeira no jardim e fiquei vendo as nuvens de algodão formando as figuras mais variegadas. Não fazia isso desde criança. Notei que, naquela época, as nuvens eram muito mais criativas no desenho de figuras. Ou será que eu é que não tenho mais olhos para vê-las?

Só vi aquelas óbvias. Um elefante, um grupo de crianças, algumas bolas de muito sorvete, um saxofone, dois golfinhos saltando e um monte de carneirinhos. Eu me lembro de que até marias-fumaça com diversos vagões eu já vi, certa vez.

Veio-me uma certa revolta e eu pedi aos deuses para pulverizarem aquele prédio que me impede parte da visão. Pedi-lhes que não esperassem nada de mim em troca, mas que, na sua magnânima condescendência, fizessem desaparecer aqueles fariseus que poluem minha vizinhança.Creio ter ouvido um trovão, não garanto. O certo é que, imediatamente, os ventos rugiram, aceleraram, mudaram de direção e pararam, depois de moldar e mudar as formas das nuvens à minha frente. Observando-as, escandalizado, desisti de vez de qualquer veleidade. Decidi voltar a contar apenas com meus esforços e aprender a conviver com as ofertas que estavam postas, que não mudariam apenas por causa dos meus singelos desejos. Veja, na foto, o que os céus me responderam, por intermédio das macias nuvens daquela clara manhã de primavera na ilha. Agora, por via das dúvidas, observo tudo, caladinho...

Domingo, Dezembro 21, 2003

Fantasmas

- Ah! Escreva uma crônica a meu respeito!

- Não sei se devo...

- Você escreve sobre todo mundo, por que não pode escrever também sobre mim? Torne-me uma musa etérea e inatingível.

- As coisas não são bem assim. Geralmente, quando se reconhecem, as pessoas não gostam do que escrevo sobre elas.

- Com certeza, você continua com a sua mania de ser desagradável...

- Não é isso. É que um texto, para ser razoável, tem que sair espontaneamente. Além disso as pessoas não gostam muito de se ver no "espelho" do olhar alheio.

- Pois eu adoro! E o meu espelho está de bem comigo, modéstia à parte.

- Imagino! Cinqüenta, mas com um corpinho de... quarenta e nove?

- Que é isso? Vou ter que lhe mandar uma foto para você acreditar que estou mesmo bem?

- Não vale uma do tempo de escola.

- Nem de roupa preta, eu sei!

Já se tinham perdido de vista uma vez. Circunstâncias além do controle, nunca devidamente digeridas, mas aceitas de parte a parte, sem possibilidade de retorno. Desta vez tudo fora mais claro, mas não menos dramático, depois de oito evocativos anos. Deve estar escrito nas estrelas que seu destino não é para ser compartilhado definitivamente. A vida conspira contra, com o luxuoso auxílio de forças terrenas bastante mais prosaicas.

Continuam a ter facilidade de comunicação, pelo menos no quesito amenidades. Sabem do que o outro gosta e como. E se não se agradam o tempo todo é por uma certa pirracinha trazida dos tempos de adolescentes e que contribui com um pouco de "sal", mas que, com freqüência, também é razão de desacordos.

As peles foram feitas uma para a outra, já que o simples toque é motivo de exacerbada excitação mútua. Nunca monotonia nos lençóis. Nunca decepção à mesa. Algum ciúme, vá lá, sempre algo que poderia ficar sob controle. Mas o sentimento de culpa para com a descendência e uma dificuldade em enfrentar a realidade sem fantasias douradas, isso sim, um empecilho real. A distância é outro.

O cuco

Calçadão da Trajano, dezoito horas. Local e hora em que começa a se delinear o território de mais uma fauna típica da ilha. E essa, nem a Silvana viu...

Fica logo abaixo do Senadinho, que não é mais aquele. Virou uma lanchonete moderna, abandonando seus antigos freqüentadores à própria sorte. No passado ali se reuniam os homens menos atarefados do planeta. Sua única ocupação era falar da vida alheia e tomar um ou outro cafezinho, de pé, no balcão.

Nas suas imediações, por tradição, ainda se reúnem jogadores de dominó, de xadrez, cambistas de dólar e de cartão telefônico, guardas da Rainha, cegos de olfato aguçado, até o "homem da cobra", vez por outra, dá as caras.

Muitas histórias foram vividas ali, outras tantas, inventadas. E se não aconteceram é porque não quiseram, que o ambiente é fértil. Não sei muitos desses casos, pois nunca fui freqüentador daquelas rodas. Por diversas razões excludentes, entre as quais: 1- não gosto de café; 2- não sou ilhéu; 3- não sou aposentado; 4- sempre tive o que fazer, infelizmente, pois aquela é uma vivência enriquecedora.

Alguns casos, entretanto, acabam entrando para o anedotário da cidade e é impossível desconhecê-los. Como o daquele sujeito que, sabedor da fama daquele povo que colocava apelido em todo mundo, apostou com um amigo que passaria um final de semana na ilha, sem ganhar apelido.

Naquele tempo, acima do Senadinho havia um hotel. Um dos poucos da cidade. E o nosso herói ficou hospedado nele. Espertamente, trancou-se no quarto e não saiu para nada, esperando com isso, ganhar a substancial aposta. Suas refeições eram entregues na porta e sua única atividade aparente era abrir a janela para espiar lá fora, ver o tempo ou respirar um pouco de ar puro.

Completado o período da aposta, desceu e pediu que lhe chamassem um taxi para levá-lo ao aeroporto. Enquanto esperava, pagou as despesas e já estava na porta, quando chegou o motorista, perguntando para quem seria o taxi para o aeroporto. "- É para o 'cuco' ali!" Indicou um dos porteiros. Ou seja, perdeu a aposta e o final de semana.

Estou, porém, me desviando do que queria contar. Eu falava da fauna que está delimitando um território ali naquelas redondezas. Pois trata-se de um grupo de surdos-mudos que se reúne entre o bingo e o McDonalds, nos finais de tarde, a fim de colocar a prosa em dia. Junta um montão de gente, rapazes e moças, jovens e nem tanto, todos a conversar usando a linguagem de sinais. E contam casos, discutem, riem, socializam-se, enfim. Mas isso não tem nada demais, você há de dizer. E não teria mesmo, não fosse um pequeno acessório encontrado na cintura de diversos deles: telefone celular! Tenho testemunhas!

Alguém pode me dizer para quê um surdo-mudo pode necessitar de um celular? Aí, fala sério!

Sábado, Dezembro 20, 2003

Pra quê discutir com madame?

Haroldo Barbosa e Janet de Almeida escreveram, em 1956, um samba com este nome, cuja letra transcrevo abaixo. Está incluído no repertório de João Gilberto, mas também foi gravado por outras pessoas. Consegui um trechinho cantado pela Luciana Souza, que pode ser ouvido online, clicando aqui.

"Madame diz que a raça não melhora
Que a vida piora
Por causa do samba
Madame diz que o samba tem pecado
Que o samba é coitado
Devia acabar
Madame diz que o samba tem cachaça
Mistura de raça, mistura de dor
Madame diz que o samba é democrata
É música barata
Sem nenhum valor

Vamos acabar com o samba
Madame não gosta que ninguém sambe
Vive dizendo que o samba é vexame
Pra que discutir com Madame

No carnaval que vem também com o povo
Meu bloco de morro vai cantar ópera
E na avenida entre mil apertos
Vocês vão ver gente cantando concerto
Madame tem um parafuso a menos
Só fala veneno
Meu Deus que horror
O samba brasileiro, democrata
Brasileiro na batata
É que tem valor"
.

A tal "Madame" que afirmava ser o "samba música barata, sem nenhum valor" realmente existiu. Seu nome era Magdala da Gama de Oliveira, e se tornou conhecida como crítica de rádio, escrevendo numa coluna do jornal Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais do país, na época (década de 1940), sob o pseudônimo de Mag. Lamentavelmente, ela conseguiu entrar para a história da MPB pelos ataques deferidos contra o samba, com a intenção de diminuí-lo, desclassificá-lo como música brasileira. Ou seja, ser uma pessoa negativa também lhe garante espaço. É meio calhorda, mas acontece muito e é muito cômodo para quem faz isso. Não há risco. Nem criação...

De lá pra cá, muita coisa rolou. Opiniões pró e contra foram esgrimidas nos meios de comunicação e o samba seguiu seu rumo, para o bem ou para o mal, independente das opiniões exteriores.

Tudo isso é só para introduzir um raciocínio que não estou conseguindo abordar de outra maneira. É aquela coisa que eu sempre repito de "perder o amigo, mas não perder a piada". O que eu quero dizer é que, na verdade, não é bem assim. Tenho alguns casos excelentes que, entretanto, não posso sequer pensar em contar, em virtude do incômodo que sua divulgação pode gerar. Há um caso na família, por exemplo, que eu vivo coçando a mão de vontade de contar, e se eu o relatasse, todos iriam dizer que eu copiei um conto do Nelson Rodrigues. Mas avalio que não devo contar e estamos conversados. E assim existem vários, claro. Também não me achem assim tão limitado. Da mesma forma, não vivo por aí procurando ser desagradável com situações delicadas. Apenas não gosto de censura.

Pois, de vez em quando, trato de algumas coisas que a hipocrisia norte-americana rotulou de "politicamente incorretas" e a macaquice nacional correu a copiar e adotar como dogma. Aí vem alguém, com o fígado doente, a cobrar postura.

Bom... comecei a escrever uma coisa que pretendia ser leve e divertida e lá vou enveredando para discussões que não conduzem a nada, até porque eu sei que não se deve ampliar a voz dos imbecis. É melhor parar. Para encerrar, só vou repetir o título do post e do samba, que se transforma em um aforismo:

"Pra quê discutir com Madame?" Até segunda ordem, publico o que me der a sapituca...

O Tólisto

Sem saber o que fazer com as mãos, ela começou, atropelando-se:

- Já sei! Nós poderíamos ir ao T&%*#h)to!

- Aonde?

- Ao T&%*#h)to!

- Desculpe, mas ainda não entendi!

- Ao Tó-lis-to!

- Tólisto? O que é isso?

- Não é o quê. É onde! É o barzinho de um amigo, onde minha turma costuma se reunir e jogar bilhar. Você não o conhece? Achei que o conhecesse. Passou pela porta quando voltávamos da festa. Fica na rua de baixo da praça da igreja...

- Tudo bem. O que você quiser. Mas você não gostaria de aproveitar que estamos sós e ficar aqui mesmo, um tempo?

- Ah! Minha mãe pode chegar...

- E qual é o problema de sua mãe chegar?

- Er... Nenhum. Mas se ela não está aqui, acho que está lá no Tólisto também.

- E que diferença faz encontrar a sua mãe lá ou aqui?

- Bom... É que, se ela ficar sozinha por lá, pode...

- O quê?...

- Ah! Nada. Acho melhor irmos para lá também.

- Sei não... Tá ficando tarde... Amanhã tenho que acordar cedo, combinei com a turma de irmos ao clube. Domingão, sabe como é...

- Tá. Então você me deixa lá?

- Sem problema. Mostre o caminho.

- Pronto. É ali. Mas pare aqui, para eu descer. Senão vão começar a falar...

- ??

- Não! Tem gente na rua. Não queerooo!...

- Tá bem! Nos vemos amanhã, então? Até!

Nunca mais nos vimos; a roda da vida girou em sentidos opostos para nós. Seu nome era Ângela, lembro-me bem dela. Linda, olhos meio oblíquos, de um verde estranho. À primeira vista pareciam olhos de cego, mas quando se olhava melhor, não dava para desviar o olhar deles. Hipnóticos. Morena, alta, belo corpo, ótima estrutura óssea, sorriso cativante. Merecia um cuidado maior com mãos e cabelo, mas tinha muito potencial.

Assim que desceu do meu fusca branco de saudosa memória, correu para amparar uma mulher franzina que tentava atravessar a rua, completamente trôpega. Saía de uma garagem mal iluminada, com umas cadeiras da Antárctica na porta, um quadro do lado de fora, escrito com alvaiade, e um letreiro pintado no muro. O famoso boteco de pinguço, como dizíamos.

Ah! E eu conhecia o dono, sim. Também estudava no campus. Engenharia, acho. Jogamos vôlei muitas vezes. Só não poderia imaginar que era ele o feliz proprietário daquele "estabelecimento". Seu nome era Tolstoy. Donde se vê que a homenagem ao famoso anarquista russo não foi muito bem compreendida naquele tempo e lugar...

Sexta-feira, Dezembro 19, 2003

Eu quero ser 'istauta'!

A boa notícia é que nossa amada Ilha tem futuro garantido. A má notícia é que se for cercada, vira hospício e se for coberta, vira circo. É brincadeira a quantidade de gente estranha que começa a aparecer, assim que o aponta o nariz do verão no horizonte do atlântico sul. No inverno também há malucos, mas quando começa a esquentar um pouquinho eles se multiplicam como minhas dívidas e dúvidas...

Já não posso colocar o pé na rua sem dar de cara com uma das figuras. E nem estou falando daquelas "de carteirinha", que todos conhecem e estão por aqui o ano todo. Eu falo das novas, digamos, aquisições para reforço do plantel.

Não sei o que há no tempo mais quente que os faz sair das tocas, mas parecem baratas quando acendemos a luz da cozinha no meio da noite: saem para todos os lados. São tantos que agora uns estão expulsando os outros, literalmente. O "Bob Marley" que ficava cantando reggae na porta do Besc, por exemplo, foi expulso pelo saxofone de um lagarto contratado pela Kilar para ficar dublando CDs de muzak na porta da loja. Como ele dispõe de um enorme amplificador ligado no volume máximo e o "Bob Marley" só dispõe dos seus sacrificados pulmões, adivinhem quem teve que, literalmente, "cantar em outra freguesia"? E isso que aquela esquina era cativa dele e do cego erótico há um milênio... Um dia desses, preciso me lembrar de fazer um post só sobre os músicos de rua e sua transmutação.

Hoje quero falar de um outro tipo de gente estranha que povoa nossas apinhadas e natalinas ruas: as "estátuas". Desde que a crise econômica na Argentina consolidou-se, não dando mostras de refresco, a ilha começou a ser invadida por outro tipo de "hermano", que não os abomináveis turistas mal educados. Nem vale a pena mencionar os punks raivosos e os "fugitivos de Woodstock" com suas bijuterias de arame e pena e pés imundos, ou os acrobatas de sinal fechado; seriam um capítulo à parte. Ultimamente, começaram a vir até os esmoleiros. Já apareceram o "homem sombra", o cara do gato no saco, dezenas de músicos e zilhões de estátuas vivas. Parece que esta última categoria é a mais prolífera. Num só dia, costumava haver cinco ou seis estátuas argentinas só no calçadão entre o Senadinho e o ARS. Nunca soube a razão de todas terem trejeitos meio boiolas, mas isso não importa. Tinha até um, que aparecia por aqui no inverno, e que se intitulava "o Homem das selvas". Franzino como um Tarzan depois da gripe, ficava só de tanga, na direção do vento sul, pelejando para ficar imóvel. Tiritava tanto de frio que se desmontava qualquer veleidade que pudesse ter de passar por estátua, coitado. Deve ter morrido de pneumonia, pois desapareceu.

Acho que a maioria dos argentinos acabou entendendo que por aqui não iriam "se criar" e foram cedendo espaço às estátuas tupiniquins, menos votadas. Como a que encontrei ontem, quando saía do trabalho. Só que, parece, o negão em questão não pegou bem o "espírito da coisa". Estava lá no meio da rua, enrolado naqueles mesmos panos, com a cara pintada de branco e uma faixa nas mãos. A seus pés, um cartaz rabiscado numa tampa de caixa de sapato, pedindo dinheiro para mostrar o que trazia escrito na faixa: Paz na terra. Até aí, pouca variação dos demais. A grande diferença é que este "maledeto" de ontem ficava se rebolando o tempo todo! Era como um dançarino de "break". É isso mesmo, minha senhora. Uma estátua viva agitadíssima. Até parecia sofrer de "dança de São Guido". Se não acredita, veja o filmete. E o pior é que tinha mané que lhe dava dinheiro, mesmo assim.

Tomara que alguém consiga logo uma lona bem grande, que a coisa tá ficando danada...

"As balas da Suíssa são as melhor"

Só se vive duas vezes:
Uma quando se nasce,
E outra quando se encara a morte.
Bashô - Poeta japonês (1643-94)


Aquela foi a primeira frase que li. Escrita em uma lata de balas que, reciclada, servia para guardar banha, na casa da minha avó materna. Era uma lata azul que tinha, num dos lados, a figura de uma garotinha escrevendo aquilo num quadro negro, braço estendido, cabeça virada para trás, expressão marota no rosto. É claro que os SS eram invertidos, para que não houvesse dúvida quanto à incorreção do texto, sublinhando que a frase era de uma criança em fase de aprendizado.

Minha irmã não acreditou que eu estivesse lendo. Tinha meus cinco ou seis anos e, naquela época, ninguém tinha que ir à escola antes dos sete. Nem depois dos doze. Ela dizia que eu decorara a frase lida por alguém, e apenas a repetia. Só no dia seguinte, quando estava no ônibus com minha mãe e li a placa da loja "Fábrica e cutelaria Madrid", foi que alguém acreditou. A partir daí, descobri um novo mundo, todo de letras, e não parei mais de ler. E também, nunca mais esqueci das duas primeiras frases...

Casa da Vovó é um espaço mágico. Tudo é grande, tudo tem uma existência encantada, tudo é motivo de descoberta. Na casa da minha avó não era diferente. Só estávamos ali durante as férias. Além disso, havia os primos, os companheiros da rua, os agregados e os tios. Profusão de tios.

As tias eram severas. Exigiam unhas e orelhas sempre limpas e, ao menor vacilo, torciam beliscões que doíam no corpo e na alma. Os tios, ao contrário, eram permanentes cúmplices e modelos. Dois deles carregavam gigantescos "chocalhos" de chaves penduradas à cintura, e sua chegada era denunciada pelo ruído característico. Todos sabíamos quem saltara do ônibus em movimento e cruzara o portão de entrada, apenas pelo chacoalhar das suas chaves; corríamos a recebê-los, olhos brilhando, na esperança de uma surpresa, quase sempre satisfeita.

Duas atividades econômicas desenvolviam-se, paralelamente, mantendo e agitando aquela gigantesca casa, para encanto dos pequenos: uma cozinha industrial, destinada à produção de deliciosas empadas e pastéis, cobiça de crianças sempre gulosas, e uma oficina de conserto de máquinas de escrever, desafio criativo nem sempre permitido às enxeridas criaturinhas. Na cozinha, aprendi a ler, observando as latas de banha; na oficina decorei a primeira frase em inglês, usada pelos tios para calibrar a força e inclinação dos tipos: "the quick brown fox jumps over the lazy dog". A frase, de intimidadora aparência filosófica, nada é além de um pequeno exercício mnemônico que utiliza todas as letras do alfabeto, aprendi mais tarde... pequeno truque de quem lidava com a tecnologia mais avançada da época.

Ainda de madrugada, iniciava-se o movimento na cozinha. Os pastéis eram fritos e as empadas assadas. Antes das sete horas dois dos tios e meu avô já haviam saído, nos primeiros bondes, cada qual com dois gigantescos balaios de salgados, cobertos com papel manilha. Os tios ainda voltavam para uma segunda viagem. O avô, que emendava uma ida diária ao mercado central, só retornava próximo do horário do almoço, com o balaio cheio de alho, cebola e revistas em quadrinho, os "gibis", como ele os chamava, genericamente. Sempre trazia também um agradinho ou outro para os netos prediletos.

Figura mais que peculiar, meu avô era leitor compulsivo dos seus "gibis". Tinha montanhas deles. Na verdade, duas pilhas: "li" e "não li". Sobre seu guarda-roupa aquelas duas pilhas desafiavam a astúcia e ousadia das crianças. Podia-se pegar para ler qualquer coisa da pilha "li". Mas nem tocar na outra. Mas, para apanhá-las, havia dois obstáculos fabulosos: um era a altura do armário, verdadeiro Everest para quem talvez não tivesse nem um metro de altura. Outro, mais arriscado, exigia planejamento para se burlar a vigilância das tias, portadoras daqueles temidos beliscões. Elas mantinham o piso da casa qual espelho polido, à custa de passadeiras de linóleo pelos corredores e do banimento dos sobrinhos para o quintal e rua.

Mas quando não havia um Chicutum para azucrinar, uma fruta para roubar, uma bola para chutar ou uma vidraça para quebrar, o jeito era procurar diversão no escapismo do avô, mesmo sob o risco da temida punição. Era fingir uma chegada ao banheiro e, se a costa estivesse livre, esgueirar para o quarto dele. Ou, ousadia maior, pular a janela. Depois afastar um pouco a colcha, subir na beirada da cama, esticar todos os músculos e torcer para não ser pego em flagrante delito. A recompensa eram horas em algum cantinho secreto, viajando para o país da imaginação, escondido na bat caverna, gritando Shazam para me transformar no Capitão Marvel, escapando dos tiros do Tom Mix, cavalgando com Roy Rogers e seu cavalo Trigger, auxiliando Tonto e Lone Rider no desbaratamento de alguma quadrilha de ladrões de gado ou banco. Esse o objetivo final do hercúleo esforço da auto-alfabetização!

Balas da Suíça, na verdade, não me lembro de ter tido o prazer de provar. No máximo, ganhava as quadradas, azedinhas e enroladas em papel amarelo, com uma foto de macaco: Balas Chita, encontradas no balaio do Vovô. Que não viu a uva quando Ivo viu a viúva...

Quinta-feira, Dezembro 18, 2003

Homens perfeitos existem

Não bastassem os casos da rua, pois a cidade anda agitadíssima, impossível, mais cheia de novidades que cunhada desquitada, chegam-me, por email, relatos deliciosos. Alguns eu peço para publicar e, se o autor ou autora não se importa, lá vai ele para o blog. Vejam, por exemplo, trecho de um email que recebi ontem daquela amiga capixaba que sonhou com o Richard Geere e acordou com o Homer Simpson:

"...Sempre digo que se eu fosse casar hoje procuraria um homem alto, forte, feições másculas, mas com um lado feminino bem forte. Já deu para perceber que eu morreria "sorteira", não deu??? Outro dia eu estava em uma loja que vende tintas e entrou um homem com a cara do genro que mamãe pediu para Deus. Fiquei admirando até que o infeliz abriu a boca e falou para o vendedor: '- Estou procurando uma tinta na cor bordô, gostaria de saber, dependendo da marca, se existe diferença na espessura da tinta.' Meu mundo caiu! Aquele homem de quase dois metros era um tremendo gay!!!! Pela primeira vez na vida, tive vontade de ser ômi."

A pobre e desiludida amiga já percebeu que não é em loja de tinta que se acha homem para o fino "paladar" dela. Respondi, entretanto, para levantar seu astral, mandando-lhe o "Poema do homem perfeito", que encontrei certa vez Internet afora e traduzi mais ou menos. Afinal, ela precisa saber "onde pisa", não é verdade?

"Poema do homem perfeito

O homem perfeito é lindo;
tem um pouco de mistério;
é belo quando está rindo
é belo quando está sério.

O homem perfeito é bom,
tem um jeito carinhoso;
quando fala, em meigo tom,
causa arrepio gostoso.

O homem perfeito é fino,
é solícito, é fiel,
tem a graça de um menino
e é mais doce que o mel.

O homem perfeito adora dar
flores, botões de rosa,
a alguma velha senhora,
ou a uma senhorita idosa.

O homem perfeito tem
energia, não se cansa:
lava louça, enxuga bem,
gosta muito de criança.

O homem perfeito é
sensível à grande arte;
gosta de dança e ballet.
Nunca haverá de magoar-te.

Encerrando - finalmente -
os versos que perpetrei,
devo dizer-te, somente...
O homem perfeito é gay!"

A garota paradoxal

Ou "O samba do afrodescendente com sérios transtornos mentais."

Esta é a história de uma linda garota que eu conheci há bastante tempo, mas bem tarde na minha vida e na dela. Desde o início, ambos ficamos surpresos com a facilidade com que nos relacionávamos. Nosso contato inicial foi por intermédio da escrita. Escrevíamos muito um para o outro, mas ela não gostava do que eu escrevia, embora eu sempre gostasse muito do seu texto.

O tempo foi passando e os textos se acumulando, até que nos perguntamos o que fazer com aquilo. "- Jogar tudo fora!" foi sua proposta inicial. Mas era tarde, pois eu nunca guardara nada, imaginando que ela o fizesse. Como ela também não o fizera, então propôs que recomeçássemos tudo, para poder, depois de juntar bastante coisa, jogar tudo no lixo.

"- Não sei se isso faz algum sentido!" Argumentei eu. "- E Você tem alguma idéia melhor?" Como não tinha, ficamos combinados assim. E começamos, de novo, a escrever. Só que agora eu percebia uma terrível armadilha nos esperando: enquanto estivéssemos planejando o que escrever, tínhamos todas as possibilidades do mundo. Enquanto ficássemos apenas pensando nos temas, teríamos toda a literatura mundial por produzir. Mas depois de escolhido um tema e iniciado o trabalho de escrever, as opções desapareciam e só ficava aquele único tema que nem sempre teria que ser o melhor ou o mais interessante para todos.

Pior ainda era o fato de que ela agora dizia que não gostava mais de escrever. Preferia falar e me ouvir falar. E eu, se nunca fui bom escrevendo, sempre fui muito pior falando. As palavras nunca me vinham no momento adequado, na clareza necessária. Depois que passava a oportunidade, sempre me vinham à mente as frases mais brilhantes que alguém poderia ter dito. Mas na hora de dizer, apenas alguns balbucios quebravam o silêncio. Coisa mais frustrante.

E aquela linda garota que tinha o dom da palavra passou, num átimo, à próxima fase: a de preferir o silêncio. Queria se expressar com o silêncio. Entretanto, o silêncio é uma mercadoria muito rara e preciosa. Não é encontrada impunemente em qualquer lugar. E ela começou a perceber que, sempre que decidia ficar em silêncio, o mundo à sua volta explodia em algazarra, ruído e vozes. Buzinas, roncar de motores, canto, gritos e música. Um verdadeiro complô.

A música estava interrompendo seu tão ambicionado silêncio? Abaixo a música. Os automóveis estavam perturbando a paz? Colocar vedação acústica nas janelas. O relógio da sala batia as horas? Amarrar seu pêndulo. E o que fazer com as crianças da redondeza? Incompreendido Herodes! É, não havia como obter silêncio vivendo na cidade. Mas ela era muito urbana e não podia sequer cogitar de morar no campo. Depois, mesmo lá, os ruídos da natureza a perturbariam, inevitavelmente.

Então ela percebeu que o único modo de se expressar em silêncio e conseguir silêncio com sua expressão era escrevendo. Um texto é silencioso por natureza, embora possa estar, naquele instante, descrevendo ruídos, rumores, algaravia e sons. E ela voltou a escrever. Agora escreve em todos os momentos que consegue.

E eu fui ficando para trás. Fiquei perdido. Não sei mais onde estou, para onde vou e até mesmo já me esqueci de onde vim. Só me lembro que conheci, certa vez, essa garota, muito linda, que escrevia o tempo todo. Eu escrevia para ela, mas ela não gostava do que eu escrevia, embora eu gostasse muito do seu texto. C'est la vie!

Quarta-feira, Dezembro 17, 2003

"Fuchimo de Bento"

Convidado para um "tour" pela região vinícola das serras, lembrei-me de um caso delicioso que me contaram uma vez, há muito tempo, de rivalidade entre rapazes de duas cidades da serra gaúcha: Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Viviam pregando peças uns nos outros. Como quem me contou era de Caxias, claro que puxou a brasa para a sua sardinha.

Antes de mais nada é preciso imaginar o sotaque daqueles descendentes de italianos, isolados naquele canto do mundo então esquecido pelo resto da humanidade. Trocam algumas letras, mudam a tônica de outras; só quem já ouviu, para ter a idéia exata. No interior de Santa Catarina também encontramos um sotaque semelhante, nas regiões colonizadas pelos filhos daqueles gaúchos. No oeste do estado, por exemplo, as três cidades emblemáticas são Xaxim, Xanxerê e Chapecó, que são pronunciadas por eles, respectivamente, 'Sassim, Sansserê e Sapecó'; na mesma pronúncia, não "encerram" o Windows. Eles o "enceram". Da primeira vez que ouvi, fiquei imaginando a janela brilhando de cegar...

Mas vamos ao caso que interessa. Certa vez, houve um baile em Bento Gonçalves e uma turma de rapazes de Caxias resolveu ir lá, apenas para aprontar, como 'vendeta', pela última incursão de rapazes de Bento a Caxias. Ninguém merece...Como estavam muito vigiados no baile, nada puderam fazer mas, antes de voltar para casa, arrancaram todos os anões de cerâmica que enfeitavam o jardim da praça principal e os colocaram em fila na estrada que liga as duas cidades. Esses anões, originalmente, seriam gnomos, protetores das terras e das matas. Mas a coisa se deturpou de tal forma, que hoje são anões mesmo, e às vezes, aparece até a Branca de Neve! Na fila mencionada, o primeiro deles carregava uma placa explicativa: "Fuchimo de Bento" (fugimos de Bento).

No dia seguinte, claro, foi um Deus-nos-acuda. Indignação na cidade, promessa de lavar a honra com sangue, essas coisas de macho! Os anões foram, afinal, devidamente recolhidos e o prefeito mandou chumbá-los com cimento no piso da praça. Dessa forma, nunca mais seriam roubados para aquelas piadinhas insultuosas.

O tempo passou e lavou a memória da população ultrajada. Novamente houve uma festa em Bento e a mesma turma de baderneiros de Caxias resolveu se divertir, outra vez, com os vizinhos. Tornaram a arrancar os anões, mesmo com toda a precaução de fixá-los no chão, e os levaram, novamente, para a estrada, em fila indiana na direção de Caxias, com outra placa nas mãos do primeiro, desta vez, confirmando a rebeldia dos pequenos: "Fuchimo denovo" (fugimos, de novo).

Quase saiu morte!

Terça-feira, Dezembro 16, 2003

A los petchos!

Ontem, no final da tarde, quando estava indo para casa, cruzei, no terminal de ônibus, com uma garota tão sumariamente vestida e tão generosa de formas, que me lembrei, imediatamente, de alguns personagens da minha infância e fiquei rindo sozinho, como um tolo.

A gostosona, que já não estava com cara de quem estivesse muito à vontade, com tanta gente - homens e mulheres - olhando fixo para ela, deve ter ficado, no mínimo, injuriada com a minha reação extemporânea.

Nem suspeitava ela, coitada, que meus pensamentos eram os mais cândidos que a situação permitia. Eu apenas me divertia com a lembrança. Lembrava-me dos dois freqüentadores do Bar do Zé Capeta, que ficavam por ali o dia todo, ao redor da sua pingazinha de lei. E toda vez que passava pela calçada alguma mulher assim, digamos, mais 'liberal', um falava, em voz alta, mordendo os lábios, juntando os dedos e balançando a mão com sincera admiração:

- Los petchos!

Ao que o outro ecoava, no mesmo tom, com o mesmo gesto, naquele simulacro de espanhol de Cantinflas:

- E las cotchas!

E voltavam para o silêncio companheiro da bebida, com a solenidade e seriedade de dândis. Não importa quem falasse antes, era automático, o outro sempre ecoava da mesma forma. Nunca soube de onde veio aquele código deles, se de algum filme que tivessem visto nas priscas eras, se de algum personagem das ruas, fala castelhana perdida nas alterosas. Talvez nem mesmo eles soubessem de onde aquilo viera. E não importava.

E a molecada, imitadora que só, passava também a usar o bordão, sempre que a oportunidade surgia.

- Los petchos!

- E las cotchas!

Que ontem estavam, os quatro, dando a maior bandeira no terminal de ônibus da Trindade. E fariam felizes dois dedicados discípulos de Baco. Um brinde!

O porteiro contra-ataca

Lembra-se do caso daquele porteiro do prédio da minha amiga que mora na Beira-mar? Aquele que dorme como uma pedra? Pois ele volta a freqüentar nossas eletrizantes páginas. Tenho um caso fresquinho, protagonizado pelo indigitado cidadão.

O dia hoje esteve meio nublado, o vento virando para sul, chegou até a chover um pouquinho, no final do dia. Pela manhã, minha amiga, querendo saber se colocava algum agasalho ao sair de casa, foi até sua sacada, a fim de ter uma noção melhor do clima.

Mal colocou os pés ali e notou uma pessoa lá embaixo, na calçada, pulando e gesticulando para cima. "- Quem será, meu Deus? Será que é comigo?" Pensou. Aí, prestou atenção e reconheceu o Juvenal, seu "competente" porteiro.

- O que foi, Juvenal? O que está fazendo aí fora? Gritou ela.

- O vento bateu a porta e eu fiquei trancado do lado de fora! Pode abrir para mim?

- E porque não bateu antes em algum apartamento e pediu para abrirem?

- É que eu não queria incomodar!

- Você está aí nesse frio há muito tempo?

- Não! Só umas três horas...

- ! ! !

Ainda tenho que tirar uma foto desse Juvenal, figura pra lá de rara...

Segunda-feira, Dezembro 15, 2003

A Harpa II, o retorno!

Harpa

Enfim, um uso nobre para aquela nefanda harpa paraguaia que assola o calçadão!

Bissexuais


Alguém já ouviu falar de aves bissexuais? Pois aqui está a foto de duas delas. Uma visita constante do meu quintal.

Junto com os pardais, sanhaços, canários, bicos-de-lacre, bem-te-vis e outros, sempre aparece uma ou outra ave columbiforme, columbídea (Columbina p. picui), distribuída do S. do Amazonas ao RS, de dorso pardo-acinzentado, fronte esbranquiçada, occipício cinzento, parte inferior vináceo-clara, garganta, meio do abdome e crisso brancos, uma fita azul-escura nas coberteiras superiores menores da asa, que se alimenta de grãos em geral, especialmente de sementes de capim: POMBA-ROLA!

É ou não é bissexual? (Não resisti à piada grosseira e infame...)

Cenas da primavera na ilha

Não esquecer que este é um ano de El Niño. Assim sendo, toda a expectativa de normalidade climática deve ser abandonada e as adaptações possíveis precisam ser feitas pelo corpo. O verão, por exemplo, foi brando e bastante seco. No inverno, por sua vez, quase não fez frio. E foi também muito seco. Só nos meses de agosto e setembro, como para demonstrar que as diferentes estações existem, registraram-se algumas temperaturas mais baixas na ilha. Mas por pouco tempo.

Assim sendo, pode-se dizer que, apenas teoricamente, estamos na primavera. Que continua muito seca. Mas as flores não foram avisadas ou cansaram-se de esperar. E têm começado a fazer suas demonstrações de poesia, beleza e delicadeza. A pitangueira é uma dessas ansiosas. Está linda e completamente branca de flores, o que provocou uma situação mais que inusitada, nesta noite.

Parece não ser uma estação que me permitirá desfrutar de todo o sono que gostaria, especialmente nos finais de semana. Também nesta madrugada eu acordei com um ruído estranho, do lado de fora da minha janela. Um zumbido forte e constante que, inicialmente, me fez imaginar estar sobre uma casa de máquinas. Abri a janela com um certo receio, por causa do meu incômodo na garganta, e o ruído ficou ainda maior, mais assustador. Estava escuro e eu não via o que podia estar produzindo aquilo.

A curiosidade, entretanto, fora definitivamente insuflada. Vesti-me e saí ao jardim a ver o que poderia descobrir. As primeiras tintas de claridade do domingo, entrementes, já surgiam e pude, guiado pelo ouvido, distinguir, pasmo, a negra silhueta da Eugenia uniflora (a pitangueira, mané) completamente coberta de abelhas. Sim, minha senhora, abelhas! Daquelas que fazem mel e, sobretudo, ferroam! Não posso informar se das européias, africanas ou americanas, pois não tive coragem de chegar perto e, muito menos, de pedir-lhes o passaporte. Nunca tinha visto um espetáculo mais estranho e assustador. Em pleno domínio urbano? Voltei sobre meus passos, cuidadosamente silencioso, fechei todas as vidraças, por precaução, e aguardei, como hipnotizado, o término daquele sinistro balé de polinização.

Logo o sol afastou as últimas sombras da noite e um forte vento nordeste se encarregou de varrer as últimas caçadoras de pólen. Voltei ao jardim, cuidadoso, mas não havia traço sequer da atividade anterior. Assim como surgiram, desapareceram. Encontrei, isso sim, muitas rosas abertas, recompensando o incômodo causado à minha coluna durante o seu plantio.

Colhi uma, especialmente bela, pétalas de amarelo intenso, borda e exterior de um vermelho apaixonante, obra prima, certamente, produzida por hibridismo. Ei-la aqui ao lado, embora a foto não lhe faça completa justiça. E aquela dama solitária no meio da minha mesa de jantar lembrou-me interessantes mulheres.

Lembrou-me, especialmente, aquela valente fada do planalto central que, sem proferir uma palavra, deixou-me delicadíssima mensagem que carrego comigo através dos anos. Gentil e de bom gosto, ao visitar-me, deve ter achado minha casa um horror de "organização" masculina. Não moveu, entretanto, um objeto sequer de seu lugar. Não formulou, ainda que velada, a menor crítica ou reparo. Sabia, posto que maga, que as intervenções mais eficazes não se fazem quando se tenta mudar o outro. Acontecem quando se procura completá-lo.

Saiu à rua e comprou uma jarrinha solitária e uma rosa. E, dia sim, dia não, trocava aquela única rosa no centro da mesa de jantar. Tal singela cortesia emocionou-me de maneira tão profunda, que se transformou em hábito cultivado, com a mesma jarrinha, até hoje. Hábito, diga-se, que até mesmo se multiplicou nas trinta e cinco roseiras de matizes diversos que tenho espalhadas em meu jardim, plantadas em sua homenagem. Com a rosa, receba um beijo saudoso, lutadora destemida.

Domingo, Dezembro 14, 2003

Segurança acima de tudo!

Mulher chique é aquela. Doutorado, pós-doutorado e tudo mais de pós que se possa imaginar ela tem e nem fica aflita com isso tudo. Regula sua vida e sua agenda pelos eventos internacionais que, afinal, é o que se espera de uma intelectual daquele porte. Tá pensando o quê?

Certa vez, envolveu-se tanto com seus milhares de afazeres profissionais que acabou ficando sozinha nas férias. A filha fora para a Grécia com o pai, a fim de conhecer os avós. O filho fora para a Tailândia, numa aventura que definiria, de vez, seu afastamento da carreira diplomática. E ela não fora para nenhum lugar, dava-se conta agora.

- Não seja por isso! Desde quando dependo de alguém para me divertir? Pensou.

Com o mesmo sentimento, ligou para a agência de viagens e contratou aquelas férias com que sempre sonhara e nunca conseguia viabilizar: Porto de Galinhas!

Assim que chegou ao seu destino, nem bem deixou a bagagem no hotel, apanhou sua nova canga florida e foi para praia. Ainda aproveitaria o final daquela tarde. E lá estava ela, completamente relaxada e feliz, quando um moleque sem camisa se aproximou dela e perguntou:

- Dona, a senhora não quer ficar na nossa barraca?

- O que vocês têm para me oferecer?

- 'Nós tem agüínha frita'!

- O que é isso?

- Espere que eu mostro.

E correu à sua barraca, voltando em instantes com um enorme prato de pequenos peixes fritos. Foi quando ela entendeu tratar-se de "agulhinhas" fritas. Deliciosas, aliás, especialmente acompanhando uma geladíssima cerveja nas praias pernambucanas.

- Mas isso é muita coisa, meu filho! Não consigo comer tudo!

- Não faz mal. A senhora paga a porção, come a metade hoje e, amanhã, eu trago a outra metade.

E assim foi dito e assim foi feito. Enquanto comia e bebia, nem se lembrando se um dia fora pobre, acercou-se dela um jangadeiro, oferecendo-lhe um passeio. Devia ter "convênio" com o garoto das agulhinhas.

- Mas o senhor tem coletes salva-vidas na sua jangada?

- Salva-vidas? Não senhora! Nunca houve necessidade!

- Como não? Estou louca para passear de jangada, mas só iria se tivesse colete salva-vidas!

Afinal, não fora isso o que aprendera em suas inúmeras viagens, singrando os mares do mundo, a bordo dos transatlânticos mais finos?

- Se a senhora quiser, eu consigo um para amanhã!

- Então, estamos combinados.

No dia seguinte, estava ela, de novo, na praia, comendo sua outra meia porção de agulhinhas fritas, quando chegou o jangadeiro, todo sorridente, com um colete salva-vidas no braço.

- Aqui está, senhora. Demorei para aparecer, pois foi um pouco difícil conseguir o salva-vidas aqui na praia. Peguei emprestado de um paulista que aportou o barco ali na enseada...

Vestiu o colete e se dirigiu à jangada, que se achava ancorada bem perto. À sua passagem, todos sorriam e ela pensou: "- Que povo alegre! Deve ser pelo fato de viverem na praia. O astral é ótimo..." Sentou-se na beirada da embarcação e partiu para a aventura marítima, pezinho para fora, brincando na água translúcida, povoada de peixinhos e moluscos, uma profusão de cores tropicais.

Quando estava a mais de quinhentos metros da areia da praia foi que a "ficha caiu" e ela percebeu que as pessoas não estavam sorrindo para ela. Estavam RINDO dela. É que, com a maré em seu ponto mais alto, a água do mar por ali não chega a ter cinqüenta centímetros de profundidade.

E é esta mesma carismática figura que está me convidando para passar o réveillon na Chapada dos Veadeiros. Será que vai funcionar?

O vento

O dia anterior fora dia lindo e luminoso, apesar do vento de nordeste. Ventou forte e constantemente. Parecia até que a natureza queria passar alguma mensagem urgente. E até desconfiava de qual mensagem seria.

Como ela morava longe, a nordeste daqui, o vento sugeria que ela não se fosse: "- Venho da sua casa. Fique mais um pouco na minha." E se exibia e oferecia a oportunidade de que os praticantes de kite e windsurf também se exibissem para ela. E tentava recompor as dunas que escorriam sob seus pés. Mostrava-se forte, poderoso e sedutor.

Permitiu-nos fazer os últimos passeios, almoçar de frente para a água, caminhar pela areia da praia, sorrir e brincar como se o tempo não fosse o carrasco que é. Não adiantou.

O dia seguinte amanheceu cinzento e assim permaneceu até seu fim, como numa demonstração dramática de tristeza pela sua partida irrevogável. Como um espelho do meu coração.

Sábado, Dezembro 13, 2003

Saia e blusa

Fazia aniversário, mas sentia-se estranha. Não superara o "inferno astral". Até mesmo roubada enquanto se divertia, havia sido, nesses últimos dias. Não estava no "clima". Nem quisera fazer festa. Medo da chuva que no ano anterior alagara sua comemoração.

O pai lhe adiantara o presente, a mãe também. Assim sendo, não se animava a sair da cama, mesmo antevendo um lindíssimo dia de praia. Enquanto estivesse na cama, estaria segura...

Antes de sair para trabalhar, entretanto, a mãe veio ao seu quarto, deu-lhe um beijo e mais um agradinho: uma roupa que vira no dia anterior e que era "a sua cara!" Agradeceu, colocou o pacote de lado e tentou dormir mais um pouco.

Na hora do almoço a mãe telefonou-lhe, perguntando se a roupa servira. Não! Ficara um pouco apertada. Teria que ser trocada. Combinaram um encontro para trocá-la, no final da tarde, antes da yoga.

Na loja encantou-se com uma blusa que era, entretanto, bem mais cara, e a mãe não se comoveu com seus insistentes pedidos. Já havia lhe dado mais presentes que o bom senso financeiro permitia. Teria que trocar a blusa que não serviu por outra idêntica, de mesmo preço, apenas de um tamanho maior.

- Blusa? Que blusa? Admirou-se.

- Você não disse que a blusinha que lhe dei ficou pequena? Nós não viemos aqui para trocar a blusa que não serviu?

- Mas eu a experimentei como saia!... Aliás, ficou linda, só um pouco justa!

Ai, meus sais! Depois estranha que tudo dê errado para ela...

Criaturas da noite

Este moquiço estará mal-assombrado? Pergunta-se gordo-e-magro naquela semi-inconsciência das madrugadas despertas por ruídos inusitados e persistentes. Após momentos hitchcock de atenção investigativa, incomodado pela perspectiva de perder o contato com morfeu, tão fugidio, decide verificar. Aproveita, john wayne, para o alívio da bexiga ansiosa pela longa cavalgada nos arizonas de sonho.

Descobre, hercule poirot, tratar-se apenas das bolhas de ar provocadas pela água da rua entrando na caixa, com força king kong, depois de uma estiagem quase lawrence da arábia. Simpson física e moralmente aliviado, acredita ser hora de tentar retomar o descanso interrompido pelos embalos de sábado à noite.

Agora nota e imagina se aquela incômoda e fred astaire dor de garganta seria o resultado tardio de tantas canções na chuva... Decide tomar uma colherada do xarope que alguém esqueceu naquele banheiro psicose junto a uma calcinha de seda james bond.

De volta à cama tarantino, enquanto busca o xangri-la do sono perdido, antecipa todas as desculpas woody allen para o médico e monstro que não consultará na próxima semana economicamente ativa. Lamenta-se, completamente charlie brown, por adoecer bem no final de semana. Tão chaplin e não poderia sentir alguma coisa numa quarta-feira wall street?

Inútil lamento tarzan. Disca M para um café da manhã no tyffany's e só lhe resta tomar um banho cindy crawford, reunir todo o ânimo john travolta que conseguir, e sair para a vida hollywood que o espera lá fora, na ilha da fantasia.

Sexta-feira, Dezembro 12, 2003

Veja que beleza!

Veja que burrice

Mesmo estando "calejado" após manter a coleção de "placas ridículas" por tanto tempo, não posso deixar de me espantar ao encontrar aqui mesmo, no centro da cidade, um gigantesco out-door como o da foto acima. Entendo que esta é uma das razões de elegermos quem elegemos. Mesmo assim, atônito, e em homenagem a quem mantém tal publicidade, limito-me a transcrever a letra da música do Tom Zé, que quem quiser ouvir, pode pegar no Kazaa (o que, aliás, recomendo):

Burrice

Veja que beleza!
Em diversas cores
Veja que beleza!
Em vários sabores
A burrice está na mesa

Veja que beleza!
Refinada, poliglota,
Anda na esquerda, anda na direita
Mas a consagração foi o advento
Da televisão.

Veja que beleza!
Em diversas cores
Veja que beleza!
Em vários sabores
A burrice está na mesa

Ensinada nas escolas,
Universidades e, principalmente,
Nas academias de louros e letras,
Ela está presente!
Veja que beleza!

Senhoras e senhores! Senhoras e senhores!
Se neste momento solene não lhes proponho um feriado comemorativo para a sacrossanta glória da burrice nacional é porque todos os dias - graças a Deus - do Oiapoque ao Chuí, dos Pampas aos Seringais ela já é gloriosamente festejada, GLORIOSAMENTE FESTEJADA!

O tesouro na gaveta

Almocei, fui ao correio, o pacote com os textos perdidos havia chegado. O sorriso foi de uma orelha à outra... Uma escrevia, abria o coração com o amigo distante e de implacável olhar crítico. Ele, incapaz de reproduzir narrativas do mesmo quilate, comentava e repassava aquelas sutis peças literárias à Outra, meio em crise na época. E esta, por sua vez, imprimia cada mensagem para, depois de ler, guardar tudo numa gavetinha secreta, provavelmente junto com papéis de Sonho de Valsa e flores desidratadas, memórias de tempos mais ingênuos.

Supondo que o outro o faria, nenhum dos três guardou os arquivos digitais com aqueles tesouros. Lástima! Este o grande risco destes nossos tempos pós-modernos: a extinção radical da nossa memória recente. Uma escavação arqueológica que acontecer algum tempo depois do inevitável armagedon atômico não conseguirá recompor a história da civilização no século XXI.

Mas, por sorte, aquela recôndita gavetinha precisou ser limpa e revelou as pepitas que eu agora recebia de volta. Sentei num banco na sombra da praça e fui ler.

Flutuei, viajei nos textos e nas lembranças, nem dava conta do que se passava ao redor. Fui, entretanto, trazido à brusca realidade por um rapaz que se sentara ao meu lado, pedindo dinheiro para "inteirar a passagem de volta a Santo Amaro".

Normalmente, minha resposta padrão para casos de dependentes químicos como este, carregada de mau humor, varia um pouco em torno do velho e irônico "- Se não tinha dinheiro pra voltar, pra que veio?" Mas como ainda estava meio enfeitiçado pelas minhas amigas que estabeleciam tão frágil e insólito triângulo amoroso comigo, limitei-me a negar, acenando com a cabeça.

E agora, desperto que estava, corri o olhar ao redor, a fim de me situar corretamente, antes de retornar à obrigação. E duas indiazinhas estavam ali perto, a cerca de dez metros, balançando-se nas "barbas" de uma grande árvore de ficus, atrás da banca de jornais.

Os pais e mães dessas crianças optaram, definitivamente, por virem para a cidade e vender "artesanato", sentados nas esquinas, objeto da caridade culpada de quem passa apressado. E os pobres curumins têm que ficar o dia todo por perto, respirando a fumaça dos escapamentos, sendo observados como pequenos animais de aparência humana, divertindo-se com as migalhas que puderem, em lugar de estar onde seria melhor, no mato, com as outras crianças da tribo, aproveitando a liberdade infantil que, normalmente, já é tão curta.

Não estava mais gostando de ficar ali. A magia fora quebrada e a realidade estressante já me dava cutucões implacáveis. Melhor voltar, escrever um pouco, riscar mais um dia no calendário da minha contagem regressiva para o futuro inevitável...

Quinta-feira, Dezembro 11, 2003

Única imagem que ocorre

Era ontem o verão, eis aí o outono
Este ruído misterioso soa como uma despedida.

Baudelaire


Durante horas lutou com o teclado como se fosse um médium em transe, tentando trazer à luz um pouco da alma dos grandes escritores que habitam suas estantes e povoam suas noites. Em desespero invocou Tolstoy, Neruda, Joyce, Machado, Dickens, Calvino, Eça, Drummond, Pessoa... Não foi ouvido. Muito menos atendido.

Em vão vasculhou a memória à cata de uma mísera recordação que merecesse ser compartilhada. Inutilmente procurou em suas anotações algo que lhe desse um motivo, um mote, uma infeliz razão para entreter os valentes, heróicos leitores. Um som, um perfume, uma musa, uma dor. Nada! Nada lhe vinha à mente que justificasse o esforço mútuo. Um deserto de idéias, perigosamente, ameaçando abrir as comportas do lugar-comum.

Por fim, imaginou que Confúcio diria algo como "para escrever é preciso ser muito paciente, mas não parecer".

E fechou a tampa do notebook como quem fecha uma campa...

Entreouvido no coletivo

Antes que conte o que testemunhei ontem, preciso fazer dois esclarecimentos para quem não é daqui, a fim de situar melhor a narrativa. Em primeiro lugar, é necessário informar que o ilhéu típico é extremamente espirituoso e gozador. Em segundo, uma notícia se impõe e diz respeito ao sistema de transporte coletivo da cidade, que está passando por uma série de transformações. Não discutirei a oportunidade ou qualidade de tais modificações, que envolvem desde a construção de novos terminais e mudanças de itinerário, até a simples sinalização. Não interessam ao que pretendo narrar. Só digo que os ônibus têm estado mais cheios de novidades que cunhada desquitada.

O 'latão'Hoje o ônibus da minha linha apareceu com uma nova plaquinha, estrategicamente colocada logo acima da cabeça do motorista. Diz ela: "Fale ao motorista somente o essencial".

Muito bem. Estou eu, posto em sossego, sacudindo em direção à minha labuta diária, quando entra no "latão" um típico manezinho da ilha. Sandália de borracha, bermudão largo batendo abaixo do joelho, e camisa do time local de futebol, rota, curta, mal cobrindo o barrigão. Olhou para a plaquinha, olhou para o negão que dirigia, olhou novamente para a plaquinha, aproximou-se do ouvido do chofer e sapecou:

- Eu te amo!

Sentou-se e mais não disse. Nem lhe foi perguntado. Precisava?

Quarta-feira, Dezembro 10, 2003

O arcanjo negro

- Já viu o que Jesus deu pra nós hoje, doutor?

"Jesus NOS deu!" ameaçou corrigir, ligada no piloto automático, a adestrada mente cartesiana até então distraída entre o umbigo e a garganta que começava a incomodar. Abruptamente desperto por aquela voz e o toque no ombro, levantei-lhe os olhos, enquanto resmungava:

- Humm?

- O céu, doutor. Já viu que lindo céu Jesus deu pra nós hoje?

Diminuí o passo e só então notei, no pôr-do-sol, o maravilhoso cenário que se estendia à minha frente, com o veludo do mais maravilhoso violeta, vindo de um tom mais avermelhado, e deslizando para o negro profundo do mar abaixo. A linda silhueta da ponte "de borracha", desenhada a pirilampos, não conseguia distrair a visão daquele espetáculo de cores e tonalidades que as palavras nunca conseguirão, sequer, sugerir.

- Eu mostrei para um garotão ali e ele disse que "era o bicho"! Não é o bicho, doutor. O bicho é o diabo. E eu sou de Jesus. Foi Jesus que fez esse céu pra nós, hoje. De graça, doutor!

Concordei e agradeci. E enquanto continuava meu caminho, agora em passo lento e cabeça erguida, desfrutando do espetáculo espontâneo exibido à minha frente, ouvia-o dirigir-se a outros apressados e distraídos transeuntes, chamando-lhes a atenção para a visão fortuita com que poderiam encerrar, gratuitamente, aquele dia de labutas cinzentas e estéreis.

Raros lhe davam atenção. Alguns receosos de ter que ouvir uma preleção religiosa; outros, pior, de serem instados a contribuir com alguma moeda para o próximo copo que aquele franzino e negro arcanjo tomaria, a fim de conseguir desfrutar as maravilhas que descobria do meio da movimentada rua da ilha. Mas ele nada queria, senão exibir a beleza que dele se apossara naquele momento, e que tinha que ser compartilhada com a urgência das poesias efêmeras.

Vinte minutos mágicos que transformam um dia absolutamente sem interesse em mote para o desfrute do momento quando e como se apresente. Sacudidela no ego para a reafirmação de minha pequenez.

Terça-feira, Dezembro 09, 2003

Olinda é aqui?

Olinda é aqui!

Pronto! "Importamos" também a mania dos bonecos gigantes? Onde está a originalidade?

Sendo que este daqui está me parecendo o Bin Laden: disfarçado e pronto para alguma malvadeza, como a de largar aquele saco enorme na cabeça das pobres criancinhas lá embaixo...

Dingoubéu pra todos!

A crônica do mau humor

Aproveitando a radiosa, luminosa manhã de domingo que se seguiu à noite mais fria de que me lembro ter passado na Ilha, dublê de blogueiro e jardineiro, fui plantar as mudinhas que trouxera no dia anterior. Enquanto derretia o gelo que chegava aos ossos e ameaçava a alma, a cabeça arquitetava os textos mais mirabolantes, pois cavoucar a terra não ocupa a mente.

Entre hibiscos anões, marias-sem-vergonha híbridas, unhas-de-gato teimosas e roseiras de matizes vários, as hipérboles voavam, as metáforas floriam. E as costas reclamavam da posição incômoda e forçada. Era hora de parar, fazer algum alongamento, guardar as ferramentas rudes e galantear o teclado, igualmente estéril.

Ainda sob o efeito da "massagem no ego" recebida um pouco antes, imaginava cometer um post poético. Desisti. Temeridade reservada aos iniciados, não é para meu bico de prosista desajeitado. Melhor falar do que incomoda. A língua ferina é mais eficiente que aquela sedutora.

E a vítima será uma classe de quem tenho certa pena, mas uma exasperação sem limites: os chatos do telemarketing, com sua linguagem forçadamente empolada, igualmente equivocada, apoiada no abominável gerundismo "... - O senhor pode estar enviando..." Esta equivocada construção, tradução literal e sem crítica do inglês, irrita-me mais que o também malfadado "a nível de" ou o caipira "por causa de que". (Ninguém merece um chefe que diga "por causa de que"!)

O "ninho" de um grupo deles é ali na Praça XV, onde ficam "lagarteando" nesses dias frios, entre um assédio e outro a um incauto assinante telefônico. São jovens rapazes e moças que não têm um preparo adequado para lidar com um público que não respeitam por não terem também a educação familiar que obriga à gentileza.

Há pouco atendi a uma dessas criações de proveta que queria me vender uma assinatura do pasquim local. "- Como é que o senhor se informa?", dispara ele, sem cerimônia como um bispo protegido pela inquisição. "- Não vejo porque deveria lhe dar qualquer tipo de informação pessoal!", respondo, mau humor começando a borbulhar no fígado. Pego no contrapé com uma resposta para a qual seu manual não previa alternativa, balbucia "- Por que só no nosso jornal 'o senhor pode estar se informando' 'através' da coluna do fulano..."

"Pode estar se informando" e "através", na mesma frase, é dose pra mamute e o velho "figueiredo" não resiste, derrama a bílis precariamente retida até então: "- E você acha que eu ralei a bunda tanto tempo em bancos de escola para ser teleguiado por um 'boca-alugada' semi-analfabeto como aquele, seu garoto limítrofe?", despejei. "- Ah! Muito obrigado pela atenção, tenha um bom dia!", gaguejou o infeliz, de quem já estava com pena antes mesmo de desligar o telefone. Afinal, emprego está difícil e essa moçada está tendo que se virar com o que aparece: prostituição ou "aviação".

Segunda-feira, Dezembro 08, 2003

Juventude ennuyée

..."But what can a poor boy do
Except to sing for a rock 'n' roll band?"
Jagger & Richards



Sonolenta tarde de sábado, um bairro operário, final da década de 1960, rapazes entediados, sem dinheiro, sem sequer uma banda de rock em que tocar. O essencial não faltava, mas "o essencial não é invisível aos olhos"? Que sabem aqueles rapazes das voltas que a vida dará? Que podem fazer com aquelas vidas por construir? Que vidas construir?

Quando suas vidas acelerarem na sua direção definitiva, um deles, um dia, mudará cidades, outro terá postos de combustível e muitos filhos, o terceiro venderá a alma e peças de automóvel com o sogro e o último, muitos calotes e esposas depois, servirá frutos do mar em seus próprios restaurantes. E não mais se falarão, não se verão, nem correspondência trocarão. Mas naquele tempo são inseparáveis quatro companheiros.

E, naquele sábado, o que fazer? Que fazer nos sábados seguintes? Traçar jogos-da-velha na areia já não atrai. E as namoradas? Muito velhas para brincadeiras infantis, muito jovens para brincadeiras de amor. Muito cedo, de qualquer forma, que antes das oito não se chega à casa delas.

Um futebol? Não funciona apenas com quatro. Viajar? Talvez!

- Para onde?

- Não sei! Quanto dinheiro temos?

- Tenho dois.

- Eu tenho um.

- Também tenho dois.

- E eu, nada. Tive que comprar estes bilhetes de rifa, senão ela terminaria comigo... Mas se ganhar, faço minha independência!

- Cincão! Dá para mais de doze litros de gasolina. Até onde vamos com isso?

- Sem abusar, dá para irmos a Três Corações e voltar. Minha prima mora lá e tem uma pensão. Poderíamos nos arriscar a "penetrar" em algum baile por lá. As garotas são lindas naquela cidade.

- Então vamos? Melhor que ficar aqui na pracinha...

- Vou avisar em casa!

- Não! Se fizer isso nos obriga a todos a fazer o mesmo!

- Então vamos!

Mais de quatro horas de estrada depois, já escuro, chegam ao destino. A prima - linda prima! - recebia a visita de um namorado, provavelmente casado, e nem lhes abre a porta. Passa-lhes, a contragosto, a chave de um dos quartos de hóspede e se tranca na parte principal da casa.

Baile? Festa? Nenhum movimento, nenhuma indicação de qualquer comemoração. Comer algo? Com quê? Não sobrou um centavo! Muito tarde e muito longe para voltar hoje. Uma volta pela praça central e de volta para a pensão, que o frio está muito e o ânimo, nenhum. Dormir cedo, acordar idem e rápido para casa, a tempo de almoçar. Isso não faltaria, ao menos.

Mas a noite é uma criança. Muito ainda tem a oferecer em desconforto e dissabor. Colchões forrados de plástico, nenhuma roupa de cama, nada com que se cobrir, o jeito é dormir vestido para não sentir tanto frio. E torcer para que o sono chegue logo, que noites desconfortáveis parecem não ter fim.

Madrugada, noite passada quase em claro no desconforto dos frios beliches, hora de pensar em voltar, de comentar os ruídos e impressões. Dramáticas impressões de uma maldita noite maldormida.

- Não consegui dormir!

- Nem eu!

- E eu? Além de tudo, a fome era tanta que tive a impressão de que minhas lombrigas sairiam pela boca?

- Lombrigas? Credo, que nojo!

- Nojo nada! Não deixei que elas saíssem. Procurei pelos bolsos algo para comer e distraí-las. Achei uns papéis, no escuro não deu pra ver o que era. Comi papel.

- Que papel?

- Deixe ver. Ainda deixei um pedaço de reserva, caso não se acalmassem. Puta merda! Comi a rifa que me custou o restinho da grana!

- Só falta um pneu furar, na volta... Não tenho estepe!

Domingo, Dezembro 07, 2003

Adeus à razão?

Já disse que raramente me lembro dos meus sonhos. Na última noite, sonhei que fazia uns versos estranhos. Tinha a idéia de estar fazendo um hai-kai, embora não saiba nada dessa técnica específica. No escuro e meio dormindo, apanhei lápis e papel que sempre mantenho na minha cabeceira, e anotei, de qualquer jeito, e com uma letra que eu quase não consegui entender na manhã seguinte: "Viver só muito a contragosto. Meu destino é aquele que está posto!"

Nem a minha muito combatida e escamoteada depressão explicava um texto tão sombrio. Fiz uma pesquisa ligeira para saber se seria algo óbvio que eu andara lendo ultimamente, mas não encontrei nenhuma menção a ele. Guardei-o da mesma forma como fora anotado e não pensei nele durante todo o dia.

Ao voltar para casa à noite, entretanto, alguma coisa guiou-me para aquele pedacinho de papel rabiscado e, assim como ele surgiu de um impulso fora de meu controle consciente, uma simples vírgula em que, da mesma forma, não pensei, fez com que mudasse de sentido, completamente, tornando-se, até mesmo, aceitável como declaração de princípios. Quebrei-o em quatro linhas e até estou pensando em colocá-lo ali do lado, em substituição ao mote do blog e como registro de um tempo difícil. Veja como ficou. Diga-me se devo ou não fazer isso. De qualquer forma, já é mais um fantasma liberado:



"Viver só,
Muito a contragosto.
Meu destino
É aquele que está posto!"


Feyerabend explica? Setembro de 2003 foi mesmo um mês muito estranho e cheio de opções difíceis...

Sábado, Dezembro 06, 2003

Entreouvido no mercado

Sábado de sol radiante, o telefone toca trazendo o convite para aquela paella há tempos prometida. Salivação abundante, apetite maior ainda, terminei as tarefas e rumei para o local do evento, no sul da ilha.

Cervejinha gelada, camarões fritos para o tira-gosto, bom papo, amigos queridos reunidos, começa o ritual de preparação da comida. Que sem um bom mise en cène não tem a menor graça. Acabo aprendendo uma nova técnica que utilizarei quando for a minha vez de cozinhar.

Panela no fogo, azeite de oliva a esquentar. Cebolas brancas cortadas em rodelas e alho picado, fritos até amolecerem. É hora de colocar o lombinho de porco cortado em cubos, que também é frito. Agora vem o frango e a lula. Finalmente, os camarões graúdos e os mariscos. O arroz é preparado à parte e reunido às carnes no momento de servir.

No meio disso tudo, os casos. Fiquemos apenas com o acontecido pela manhã, no mercado, quando os ingredientes estavam sendo adquiridos. Entre uma seleção de camarões de bom porte e a escolha do melhor pedaço de carne de porco, ouviu-se a pergunta de um estranho que, com certeza, não era da ilha, pois a iguaria não é usual por aqui, terra de pirão de peixe:

- Vocês têm miolo de porco?

- Não senhor!

- Mas se eu encomendar, vocês conseguem para mim?

- Não. Lamento, mas nem com tempo conseguiríamos o que o senhor quer.

- Então, quer dizer, que vocês não trabalham com a "massa encefálica"?

- ? ?

Só mesmo na ilha...

A propósito, a paella, como não poderia deixar de ser, estava deliciosa! Se fui pobre, não me lembro...

Sexta-feira, Dezembro 05, 2003

Avaliação formativa

O relógio do Coelho marca dias em lugar das horas. Parece que o meu marca meses. Nem bem pisquei os olhos em janeiro e já é dezembro, já é quase ano que vem. O cabelo cada vez mais branco e mais ralo. Hora de fazer um balanço do ano? Bobagem! O continuum tempo-espaço desaconselha esse tipo de revisão meramente gregoriana. O melhor é fazer as avaliações o tempo todo.

De vez em quando é necessária uma ajuda externa, claro. Uma boa sacudida que se receba da vida mostra os erros e acertos no que se fez ou deixou de fazer. Assim como nossas ações são motivadas por alguém, da mesma forma o são nossas omissões. E quantas vezes se deve lamentar mais a omissão que propriamente a ação... Portanto, quando se consegue que alguém por generosidade, ódio ou frustração coloque o dedo nas nossas feridas, não se deve ficar zangado. Deve-se agarrar a oportunidade com unhas e dentes e aproveitar para dar uma olhada para dentro e para trás. Mas olhar com isenção, sem tentativas de montar argumentações e defesa. Não é necessário correr à esquina e gritar aos sete ventos o quanto se é calhorda ou sublime, mas uma olhadinha por debaixo do tapete, sem medo do que vai ver ali, acaba sendo muito bom para prevenir futuras infâmias.

"Não tive a intenção" não vale nada. Crime doloso, culposo ou omissivo resulta, igualmente, em dano. Assim, vale lembrar o velho bordão, segundo o qual, "de boas intenções o inferno está cheio". E olho no futuro, pois avaliação é meio, nunca fim. Mas como é penoso... Acho que sozinho não consigo!

Onde o povo está?

Almocei e fui dar um "rolê" digestivo, que é o máximo de exercício que me permito, antes que o tédio assuma o controle. Aproveitei para dar uma chegadinha ao novo terminal de ônibus sem ter que ser para embarcar, a fim de verificar se haveria por lá alguma placa divertida dando sopa. Não tinha, mas a fauna estava excelente. Digna de um divã.

Eu sempre digo que imbecil não tem tédio. Não sei se todos concordam, mas me lembrei disso por causa de um imbecil que existe aqui e que azucrina a cabeça dos passantes com um megafone amplificado no qual ele fala todo tipo de abobrinha. Só que, como ele tem uma dicção péssima, aliada a um sotaque ilhéu dos mais carregados, ninguém entende o que ele fala. Veste-se propositalmente de maneira espalhafatosa, inclusive com um par de cornos na cabeça, e ganha a vida fazendo publicidade das lojas que não se tocaram que ele é o maior espanta-cliente que existiu, existe ou existirá.

Mas, graças a Deus, ele mudou o seu ponto. Saiu daqui de perto, das escadarias da Catedral e foi lá para a faixa de pedestres do Terminal. E hoje, involuntariamente, ele estava engraçado. Estava fazendo publicidade de uma farmácia que existe lá dentro, onde hoje o absorvente "Sempre Livre" estava em oferta. E ele bradava, no meio do povo estressadíssimo que entrava e saia das plataformas de embarque: "- Hoje o absorvente Sempre Livre está em oferta na 'Farmácia Tal'. A senhora aí, aquela moça ali: está no dia dela? Melou a calcinha toda? Passe ali na farmácia e aproveite a oferta do dia. Absorvente Sempre Livre." E continuou emendando frases desse tipo e começou a se abrir um buraco na multidão, especialmente por causa das mulheres que não queriam passar perto dele, com medo de serem apontadas como quem está "com a calcinha melada". Terrível!

Dei a volta no terminal, não achei nenhuma placa divertida, e saí num gramado que o separa da Rodoviária. Sentada num banco desses de jardim, estava uma mulher falando ao telefone. Tinha uma gigantesca bolsa com ela, além da indefectível sacola de boutique. E falava ao celular e, com a outra mão, procurava algo dentro da bolsa. E nada de encontrar. Por fim, exasperada com aquilo, disse no aparelho: "- Espere um pouco!" E, simplesmente, virou o conteúdo da bendita bolsa no chão, entre as pernas. E dê-lhe catar bagulho para colocar, de volta na bolsa, enquanto tentava encontrar o que queria. Se eu fosse listar o que havia naquela porcariada, iria passar umas duas semanas fazendo rol. Só digo que tinha Sempre Livre e disquete. Quem quiser que associe as coisas. Só aviso que os slots são diferentes...

Continuei. Distraído, ia atravessar a avenida para voltar, quando, saída do nada, uma mulher com uma lata de qualquer bebida na mão, resolve assoar o nariz ali mesmo. Sabe aquelas, em que a pessoa se curva, larga tudo na mão e depois dá um safanão para o lado e limpa na perna da calça? (Argh!) Se não sou rápido, uma hora dessas estaria em casa trocando de roupa, que desta vez não seria Sundown, como no bondinho do Corcovado, com certeza. Uma nojeira!

"Todo artista deve ir aonde o povo está", não é o que disse o poeta? Eu fui. E quase me dei mal...

Quinta-feira, Dezembro 04, 2003

Vaga-lume

Hoje eu estava sem nada o que postar, pois o texto que havia escrito não resistiu a uma leitura: estava muito melancólico e pessoal. Não ajudaria na reconquista da estima que estou tentando.

Abri o dicionário a esmo, coisa que faço sempre, e o olhar foi direto a "vaga-lume". Ali diz que é um eufemismo para "caga-lume". Mas isso quando se refere ao inseto coleóptero (classificação que está no mesmo dicionário) também conhecido como pirilampo. Aliás, os sinônimos brasileiros e lusitanos para o tal inseto não são mais elogiosos: caga-lume, caga-fogo, cudelume, luzecu, luze-luze, lampíride, lampírio, lampiro, lumeeira, lumeeiro, mosca-de-fogo, noctiluz, pirífora, salta-martim, uauá.

Em função da fosforescência que lhes decorre de uma reação química, o inseto emprestou seu nome àquele empregado dos cinemas que nos apontava com uma lanterna os lugares vagos depois que as luzes se haviam apagado. Dei-me conta, então, que esta é mais uma profissão extinta. Assim como a de baleiro, seu colega de escurinho.

Hoje nem cinema existe mais, só aquelas caixinhas de shopping. Mas quem, de certa geração para trás, não se lembra daquelas figuras que, antes do início das sessões, ficavam andando entre as poltronas das salas de exibição, com uma espécie de pequena mesa pendurada no pescoço, carregada das mais variadas guloseimas, chamando a atenção dos espectadores ao chacoalhar caixinhas de "Mentex", a apregoar "Balas, drops!"

Em alguns cinemas esses empregados usavam até mesmo uma roupinha especial, espécie de farda com galões no ombro e um chapeuzinho plano e sem aba. Exatamente como o mensageiro das latas de "Cera Parquetina". Meu Deus! Que viagem!

Eu, que sempre tive um fascínio por tipos estranhos, sonhava ser baleiro ou vaga-lume. Não tirava os olhos deles, enquanto circulassem por perto. Às vezes as luzes já se haviam apagado, começava o jornal ou os trailers, e eu ainda acompanhava os personagens que se haviam escondido nas cortinas. Não pelas balas, que aliás, nunca fui muito de doce, mas pela mágica de circular pelos recantos secretos do cinema, como eu imaginava então. Sem contar a "roupitcha", claro! Qual criança não se encanta por roupas estranhas?...

No jogo de futebol era a mesma coisa. Um tio era associado do clube em cujo estádio se realizavam os principais jogos. Por ser associado, ele entrava sem pagar e podia levar uma criança. O privilégio era dividido com meu irmão e um primo. A cada semana um de nós o acompanhava. Mas logo, eu, que era o predileto, pois além de sobrinho era afilhado, perdi o lugar, pois diz ele que eu assistia aos jogos de costas para o campo.

É que os vendedores de sorvete, mate, bandeirolas, cachorro-quente, pipoca e até, pasmem, - leite, em caixinhas piramidais! - atraíam-me muito mais que os vinte e dois marmanjos correndo atrás de uma bolinha mixuruca. Os pregões e fantasias dos vendedores e torcedores eram muito mais divertidos e criativos.

E, talvez, confirmando a ligação cósmica entre todas as coisas, no momento em que fazia toda essa viagem pela memória, que começou com o vaga-lume, noto uma luzinha a piscar pela casa. Entrou-me pela janela aberta um grande vaga-lume que agora pousou na parede. Quando criança eu o colocaria em um frasco para iluminar uma cabana feita de lençóis. Hoje me limitei a soltá-lo no quintal. Sinal dos tempos?

Enquanto isso, no elevador...

Todo esse papo de porteiros, prédios e quetais me lembrou um outro caso, que me foi contado por um amigo. Um desses amigos bem humorados em quem não se pode acreditar sempre, mas a quem não se pode deixar de ouvir, nunca.

Contou ele que, certa vez, entrando apressado no elevador, carregado de pacotes desajeitados, sem querer, ao apertar o botão de seu andar, deu uma cotovelada em uma mulher que já ali estava. Galante e galinha como só, desculpou-se:

- Perdão! Aliás, se seu coração for tão mole quanto a parte em que esbarrei, tenho certeza de que a senhora vai me desculpar...

Ao que a "ofendida" respondeu, ligeira:

- Claro! E se outras partes do seu corpo ainda conseguem ser tão duras quanto o seu cotovelo, meu apartamento é o 506...

Quarta-feira, Dezembro 03, 2003

Cúpido

Sonhar contigo e acordar
Enorme, em plena madrugada.
Tentar livrar-me do vexame
Usando a manha de pensar
- Sonolento, antes de mais nada -
Na máquina de cortar salame!

Porteiros nossos de cada dia

Estive vendo as novidades na página do "Porteiro Zé" e à noite minha amiga me telefonou para um tricozinho básico que, obviamente, passou pela laboriosa classe dos "controladores de acesso residencial" vulgarmente chamados "porteiros de edifício". Sei que minha vida ficou menos divertida desde que não moro mais em prédios, portanto, não tendo mais que lidar com porteiros, mas não sei se tenho saudade do frisson. Dizia ela que o porteiro de seu prédio, por exemplo, é tão antigo no posto que, folgado como luva de maquinista, já arvorou de "guardião da honra e da saúde" das moradoras.

Dia desses tinha "caído" o maior vento sul e estava mais frio que café de repartição. Toda faceira, lá ia ela para a "night", que a vida é curta e não é assim com qualquer pneumonia que ela vai deixar de conjugar adequadamente o verbo ir. Saindo de trás da sua mesa coberta de botões e interfones o "Seu Almeida" a interpelou, dedo em riste:

- A Senhora vai sair? Vai sair a uma hora dessas? Vai sair com um vento gelado desses? A Senhora já viu como está frio lá fora? Não vai colocar nem um xalezinho cobrindo esse decote?

- Seu Almeida, o senhor é meu pai? É meu marido? Então esqueça meu decote e abra logo esse maldito portão!

- Só mesmo a Senhora, para sair de uma casa quentinha como a sua, para uma rua fria como essa...

Mas o melhor porteiro dos últimos tempos é o do prédio de outra amiga, que também mora aqui na ilha, ali na Beira-mar Norte. A região onde mora é muito visada por ladrões, assaltantes, traficantes e trombadinhas diversos, por ser uma área elegante bem no pé de um morro cheio de favelas cabeludas.

Em nome da segurança, portanto, os condôminos combinaram que ninguém teria o controle remoto do portão, que seria aberto pelo porteiro, de dentro da sua guarita. Muito adequado, muito prático e funcional. Ou não? Há controvérsias. Pois o Juvenal, porteiro da noite, tem um sono incontrolável. Passou das nove da noite e nem um terremoto acorda o homem.

Já entrou para o folclore do prédio a noite de chuva em que sua filha chegou mais tarde da faculdade, sozinha. Apontou o carro na entrada e "beliscou" a buzina para pedir ao Juvenal que abrisse o portão. Nada de resposta. Buzinou mais forte e nada. Deitou-se na buzina e o que conseguiu foi que todas as luzes do prédio se acendessem e diversas janelas se abrissem para ver o que poderia estar acontecendo.

Constrangida, a garota ainda se safou adequadamente por estar com o celular à mão. Ligou para casa e pediu ao pai que descesse para ver o que estaria sucedendo, que o portão não se abria.

De pijama e chinelão, lá se vai o amoroso pai. Não havia ninguém na mesa da portaria. Olhou pela janela da guarita e lá estava o "belo adormecido" no sétimo sono, com a camisa toda babada. Bateu à porta, que só se destranca por dentro, e nenhuma resposta. Bateu, de novo, e nada. E a garota lá fora. E a chuva apertando. Começou a esmurrar a porta e, afinal, o Juvenal acordou. Assustado, sacou o revólver e saiu correndo da guarita, atirando para cima e gritando, prédio adentro:

- O prédio foi invadido! O prédio foi invadido, alguém chame a polícia!

Naquela noite, Maracujina foi pouco para acalmar o coitado. Em compensação, deve ter-lhe dado um soninho...

Terça-feira, Dezembro 02, 2003

A fauna do calor

Não sei se já estivesse aposentado teria tantos casos para contar do que encontro pelas ruas. Talvez a ampliação do tempo livre embotasse a percepção ou me levasse a desenvolver outros interesses, sei lá. No passado já estive, mais de uma vez, para escrever artigos sociológicos a respeito da "fauna" que anda solta por aí, mas desisti. Acho que contar cada um ressaltando o ridículo (no sentido de provocar riso) de cada situação acaba sendo, além de mais divertido, mais efetivo.

Quando o "espírito de verão" começa a se manifestar então, as coisas ficam impossíveis. Todos já leram aqui e na Mãe do Zulu os casos da jamaicana, da amante do Papai Noel e alguns outros igualmente recentes. Pois nesta segunda-feira, se ficasse as vinte e quatro horas na rua, teria histórias para contar por uns dois anos seguidos.

Começa com o frisson natalino que alvoroça a todos, especialmente comerciantes, na disputa por um naco do décimo terceiro salário alheio. E haja criatividade! Acredito que já se tenham gastado todas as possibilidades de se ser criativo nesta época do ano. Tudo parece requentado, reutilizado, falso. Só no largo à frente da Catedral havia ontem, no final da tarde, seis homens vestidos de Papai Noel a disputar, quase no tapa, as raras criancinhas a quem oferecer uma balinha melada.

Dia primeiro de dezembro agora é comemorado aqui de uma maneira diferente. Alguém determinou que seria alguma coisa como "dia do orgulho de ser portador da AIDS" e a cidade amanheceu coberta de fitas vermelhas para lembrar isso. Até nos retrovisores dos ônibus havia fitas vermelhas; sem contar que todos os cobradores vestiam uma camiseta que reproduzia uma fita enrolada na ponte Hercílio Luz.

Havia também uma gigantesca fita estilizada, feita de algo rígido, e que era colocada nos postes, nas árvores e placas. Acredito que quem tivesse a obrigação de espalhar essas fitas enormes, entretanto, tenha se entusiasmado. Ou então, duvidou da hombridade daquele marechal de perninha levemente dobrada e mãozinha na espada. Veja, na foto, o que fizeram com a boneca.

Mas o inesperado do dia foi um novo personagem das ruas. Não sei onde essas figuras se escondem durante o restante do ano para saírem das tocas como hordas de saúvas, assim que chega o calor. Eu tinha ido ao correio verificar minha correspondência, passara na livraria para buscar meu livro semanal e estava atravessando a Praça XV pelo seu centro. Bem ali, debaixo da figueira, tive que diminuir o passo, lançar mão, novamente, da minha inseparável câmera e registrar mais uma contribuição para a coleção de placas ridículas, que me lembrou a carrocinha de pipocas afirmando que o mundo sem pipoca seria um caos.

Era uma carrocinha muito bem-feita, caprichosamente pintada de vermelho, até espelho retrovisor tinha. Talvez venda bebidas. Na lateral ostentava a enigmática frase "Operação verão. Gago em ação" e, de cada lado, uma foto do Guga. Assim que a fotografei o gago em questão interessou-se. Ficou me chamando e dizendo:

- Go-go-gostou, do-doutor? Po-pode foto-grafar! Po-pode co-colocar no-no jo-jornal. E se eu ga-ga-guejar, tá-tá li-limpo!

- Então, está limpíssimo! Respondi e continuei meu caminho, assunto garantido para mais um post.

Algo me diz que agora que botou a cabeça para fora, ainda vamos ouvir falar muito desse autodenominado "Ga-gago"! É só uma que-questão de te-tempo.

Ode à camisa amassada

Era uma vez, em um reino encantado e muito distante, uma cortesã e um truão que tinham lá suas cumplicidades para se proteger do despotismo da megera Rainha. Sempre que o casal real caía no sono após os lautos banquetes diários, os dois infelizes saíam a passear pelos jardins suspensos protegidos por eunucos negros, cimitarra à cinta. Caminhavam e conversavam, pois era apenas o que lhes restava, depois de tanto esforço para divertir aqueles depravados.

Ambos tinham ambições maiores que não conseguiriam realizar, em função da casta em que nasceram. Mas sonhavam, e nos sonhos escapavam para vidas mais serenas, mais completas, mais satisfatórias. Ambicionavam realizar o potencial que imaginavam subjacente naquela rotina de entreter os poderosos.

- Ainda hei de escrever belas histórias, contos galantes, novelas heróicas. Inventarei reinos justos governados por reis e príncipes belos e modestos, preocupados, sobretudo, com o bem-estar de seu povo... Suspirava a cortesã.

- Pois eu ainda cantarei minhas composições em teatros elegantes para platéias eruditas e atentas, que valorizarão cada estrofe de meus versos e cada acorde de meu triste alaúde... Ecoava o truão.

- Ah! Mas para se apresentar em palcos assim, você precisa começar a se preocupar mais com a sua vestimenta.

- O que tem a minha roupa? É a mesma que uso, diariamente, nos últimos cinco anos. Só tem alguns pequenos remendos nos joelhos, cotovelos e aqui nos fundilhos, mas, no geral, ainda está muito apresentável.

- Vocês homens são um terror em matéria de vestimenta... veja como sua camisa está toda amassada...

- Mas como você quer que ela fique, depois de ser lavada? Acabei de colocá-la. Está limpinha e, até o final do dia, já terá tomado o formato do corpo; estará lisinha!

- Você já ouviu falar de uma nova invenção trazida dos reinos de além-mar, chamada "ferro de passar roupa"? É uma maravilha. Você abre a sua parte superior e, dentro, coloca uma certa quantidade de carvões em brasa. Sopra um pouco para avivá-los e passa o ferro sobre a roupa que foi lavada. Ela fica uma beleza. Sem nenhuma ruga nem amassado. Veja minha saia e compare-a com a sua camisa...

- Não dá para comparar. A sua saia esconde suas partes baixas. Minha camisa enfeita meu peito. O que podem ter em comum?

- Ai, meu Santo Padim Ciço! Compare como o tecido de uma está liso e o de outra, amassado, ô Mané...

- Ah! Pois! Agora entendi. Realmente. Mas qual é o objetivo disso?

- Ficar mais bonita, ora!

- E para que você quer ficar mais bonita?

- Faz parte do meu trabalho, estar sempre bonita.

- O que a Rainha disse a respeito disso?

- Ficou muito impressionada e me encarregou de passar todas as suas roupas. E também as do Rei...

- E você vai ganhar algo com isso?

- Não. Mas também não vou ganhar chicotadas. Não se as roupas ficarem bem passadas.

- E depois que eles acordam, as roupas ainda estão lisinhas?

- Claro que não! Aí têm que ser passadas, novamente.

- E quem é que as passa?

- Eu. Quem mais?

- Estou começando a entender. Muito vantajoso! E antes de você comprar esse tal ferro de passar roupa, como ficava a roupa deles?

- Amassada, como a de todos.

- E você tinha que fazer alguma coisa com elas?

- Não. Você sabe que a minha tarefa é pentear os cabelos da Rainha.

- E passar a sua roupa.

- É. Mas isso é agora...

- Sei. E você quer que eu também comece a passar a minha roupa?

- Seria bom. Ficaria mais bonito.

- E para que eu vou querer ficar mais bonito, se meu ofício é deleitar a corte com meu canto e minhas momices?

- Você poderia ser descoberto por algum agente de Hollywood, poderia ser convidado a estrelar algum filme...

- Filme? O que é isso?

- Deixa pra lá. Você não entenderia. Além disso, nem foi inventado ainda...

- Torno a perguntar: para que iria querer ficar mais bonito, à custa do esforço de passar algumas brasas sobre minha roupa?

- É que as mulheres gostam...

- Até hoje, também gostaram de minha música, mesmo com a camisa amassada.

- Pode ser...

- Mas eu acho que estou começando a entender o seu ponto. Um dia desses, minha namorada e eu íamos sair à noite, e eu estava trocando de roupa. Coloquei uma ótima camisa que trazia guardada no dedal para uma ocasião especial, quando ela me disse: "- Você não acha que essa camisa está muito amassada? Eu não sou de reparar, mas será que não seria melhor você colocar aquela outra ali?"

- Pois é. É disso que eu estou falando. E aonde vocês iam?

- A nenhum lugar especial. Apenas àquele novo restaurante na orla da floresta...

- Aquele super chique? E você queria ir com uma camisa guardada num dedal?

- É... pensando bem... Mas eu tive uma idéia. Já sei como ter minhas camisas bem passadas, embora de um jeito muito caro: casando-me!

- Eu não acredito que estou ouvindo uma barbaridade dessas!

- Mas isso é uma coisa natural! Está na natureza das mulheres. Você acabou de me confirmar e me fez lembrar de uma passagem que também o corrobora... Acho até que vou fazer uma ode a respeito disso!

- Eu não posso falar com você. Tudo o que falo, você aproveita nas suas malditas odes. Se me mencionar nesta eu o mato!

- Mas...

- Ah! Tá bem. Pode mencionar. Na verdade, eu até gosto... Mas me faça parecer linda!

- Combinado! Mas você passa a minha camisa!

Segunda-feira, Dezembro 01, 2003

O espaço de trocas

Peculiar novo espaço este dos blogs, já há muito desbancou a popularidade e prestígio dos chats, reconhecidamente, uma das alavancas da multiplicação do mundo virtual. Aqui é onde escrevinhadores dos sete cantos convergem em todos solstícios, equinócios e também na efeméride intermediária, para trocas semelhantes às que eram realizadas em outra época de grande presença tecnológica, a das grandes navegações. Deixava-se uma saca de uvas passas e levava-se outra, de pimenta-do-reino; deixa-se um comentário e leva-se uma reminiscência.

Depois, retornando aos próprios portos, que antes ficavam a milhares de milhas e agora a um clique de distância, implantava-se seu próprio comércio, desenvolve-se sua própria memória. Embora a leitura tenha sido a razão da primeira visita, não é a motivadora do retorno constante. Essa mesma leitura pode ser feita muito mais rica e confortavelmente nos milhares de livros recheados de contos a que todos têm acesso, até mesmo os muito isolados. O principal motivo da volta é a interação.

Não é, portanto, apenas para ler e comentar que se volta a um blog, mas também porque, ao redor das fogueiras virtuais, como em torno de um mercado, sentado sobre sacos e barris, ou deitado onde puder, para cada palavra que se diz - como "penas", "castanha", "amigo", "tesouro", "amantes" - os outros contam uma história de penas, castanha, amigo, tesouro ou amantes. E sabe-se que, na viagem de volta, enquanto tentar se manter acordado apesar do peso das pálpebras, puser-se a pensar nas próprias recordações, as penas se terão transformado em outras penas, a castanha em uma castanha diferente, o amigo não será aquele, assim como o tesouro ou os amantes, todos renovados.

E, depois de alimentar seu blog, lembra-se daquelas histórias que conheceu, que não são mais aquelas, são as suas próprias, latejando em pulsão irresistível para se exibirem, serem visitadas, lidas, comentadas e gerar novas memórias em outros visitantes, ativar velhas lembranças que geram novas histórias, que se transformam e alimentam o círculo virtuoso que não tem fim por não precisar ter.

Desvendada a mágica que multiplica os blogs, locais de troca de memórias em todos solstícios, equinócios e também na efeméride intermediária.

Pinduca

Parece que todos tivemos um Chicutum na vida. Ou o fomos um dia, sei lá. Helena colocou para tocar um antigo disco do Beto Guedes e logo começou a rolar uma das minhas músicas prediletas, que há tempos não ouvia: Roupa nova. É de uma nostalgia de cortar o coração. Não sei se toca dessa forma só a mim, relembrando uma infância brincada à beira da estrada de ferro, ou se tem o mesmo poder evocativo em qualquer ouvinte mais atento.

Fato é que me remeteu, entre outras memórias, ao caso que já contei, do Chicutum, que não podia brincar com as outras crianças. Na poesia do Fernando Brant, também o Pinduca não tem a honra sequer de ver o trem parado. Mas nem por isso perde a esperança de que tal aconteça. E um nó sobe à garganta ao imaginar a pobre criança de espírito forte e sorriso aberto, naquela cidade erma e distante, provavelmente encravada entre montanhas, poeira grudando na pele e na alma, e que nunca poderá oferecer aos seus filhos mais que ofereceu aos pais deles: uma vida dura e sem brilho, ganha na enxada e na roça, apenas o essencial, da mão para a boca.

Comovente esperança do negrinho que reserva sua melhor roupa para ver o trem passar carregando para longe sua fé e seus sonhos. Talvez ele mesmo não soubesse o que fazer se o trem parasse. Pode ser que, como os cachorros que perseguem carros, também parasse, sem ação, ante o resfolegar impressionante do vapor na plataforma. Talvez embarcasse nele com destino à cidade grande, mais um favelado a ver seus sonhos corroídos pela fumaça dos escapamentos, sonhando com o retorno e com os dias em que esperava o amigo trem, portador da fé num futuro radioso.



ROUPA NOVA
(Milton Nascimento / Fernando Brant)

Todos os dias, toda manhã
Sorriso aberto e roupa nova
Passarim Preto de terno branco
Pinduca vai esperar o trem

Todos os dias, Toda manhã
Ele sozinho na plataforma
Ouve o apito, sente a fumaça
E vê chegar o amigo trem

Que acontece que nunca parou
Nessa cidade de fim do mundo
E quem viaja pra capital
Não tem olhar para o braço que acenou

O gesto humano ficou no ar
O abandono fica maior
E lá curva desaparece a sua fé

Homem que é homem
Não perde a esperança, não
Ele vai parar
Quem é teimoso
Não sonha outro sonho, não
Qualquer dia ele pára

Assim Pinduca toda manhã
Sorriso aberto e roupa nova
Passarim preto de terno branco
Vai renovar a sua fé.