Zeitgeist
Vupt! Lá se foi, veloz, mais um ano gregoriano! Nem bem me tinha acostumado a escrever 2003 nos cheques, já vou ter que treinar outra data. Aliás, o que faço nos primeiros talões do ano é escrever o número novo em todas as folhas. Assim tenho um tempo para acostumar os ressequidos neurônios à nova grafia. Mas os cheques não são a pior parte dessa virada de calendário. Os poucos cabelos na cabeça, pelejando para se encontrar com seus irmãos no ralo do chuveiro incomodam muito mais. Como dói um cabelo no ralo... como dói pensar que você já cuidou daquele ingrato com os melhores xampus, as escovas mais suaves, os pentes mais delicados e ele agora está fugindo, célere, para aquele buraco escuro, úmido e frio. Pensar que você já o deixou passear até abaixo dos ombros, já o deixou esvoaçar ao vento insistente, e agora ele só não cai se ficar preso na escova. Se isso não é ingratidão, me digam o que é!
Outra ingratidão vem das roupas que teimam em "encolher". Aquele blue jeans novinho, boca-de-sino e nesga lateral, que agüentou estóica e heroicamente até as passeatas de "abaixo a ditadura", sob comemorativas cacetadas policiais, num átimo, resolve não mais servir na cintura. Novinho, repito! Talvez sirva, colocando-o de cabeça para baixo, pois na bainha ele é mais largo que na cintura. Sei lá... Deve ser um complô do vestuário, pois também as camisas, vez por outra, resolvem não mais abotoar. Não mais querem cobrir o "calo da prosperidade" que alguns mais cépticos insistem em chamar "árvore de cemitério", apenas porque, segundo eles, faz "sombra no defunto", os invejosos!
O calendário tem se revelado, realmente, o mais cruel dos carrascos. Dia desses, no ônibus, uma mocinha até mesmo se levantou e me ofereceu seu lugar. Alguém pode ver nisso um trivial gesto de cortesia, não eu! Afinal, quem ela pensa que é? Alguma criança? Quem ela pensa que eu sou? Algum ancião? Não, senhora! Sentei-me agradecido, mas sob protesto íntimo e silencioso! Ora! Respeitem meus cabelos brancos! Os poucos solidários companheiros que ainda restam, impávidos...
Talvez a garota estivesse com furúnculos na "zona sul" e precisasse refrescá-los de tempo em tempo. Sim. Deve ser isso. Bem que sua pele me pareceu meio gordurosa em excesso. Ela é que não conseguia ficar sentada. Pronto. Está honrosa e satisfatoriamente explicado o embaraçoso episódio. Só não sei por que as pessoas ao lado se afastaram para que eu me sentasse, mas, tudo bem!
Assim também como não sei por que os filhos dos amigos e conhecidos insistem em me chamar "tio" e os balconistas "senhor". Deve ser algum impenetrável código lá deles. Vá entender essa meninada... Que não me chamem, entretanto, "Tio Sukita"! Isso nunca! Recuso-me a tão aviltante papel.
- Tem horas que você sente a velhice chegando? Perguntou-me, capciosa, a elegante amiga que nasceu no mesmo ano que eu.
- Claro que não! Respondi sem muita convicção, encolhendo a barriga, automaticamente.
Completei afirmando que algumas coisas eu rejeito, a priori, por pura coerência. Freqüentar grupos de dança de salão e rodadas de bingo, por exemplo. Além de usar óculos bifocais e tintura nos bigodes! Não me ofendam ainda mais, com propostas desse tipo, pois espero ver meu tempo chegar com um mínimo de dignidade. A propósito, já reparam na mania desse povo de levar os velhinhos pra dançar e jogar bingo? O cidadão nunca "balançou o esqueleto" na vida, mas assim que lhe pespegam o epíteto de "idoso", resolvem que tem que virar um "pé-de-valsa", da noite para o dia, na marra. E dê-lhe Roberto Carlos nos aparelhos auditivos, castigo imérito e aviltante para o infeliz pagador de impostos. Me poupem de tal falta de imaginação, quando chegar minha hora!
Mas nem tudo são espinhos nesse vale de lágrimas (esta frase está na página 58 do livro de ouro dos lugares-comuns). O Zeitgeist ('espírito do tempo', para quem não sabe alemão) também nos traz algumas boas coisas. Não faço idéia de quais sejam, mas quero, de todo coração, acreditar na sua piedade! E que a terra nos seja leve. Daqui a muito tempo, aliás...
Feliz ano novo, sobrinhos!
Estou precisando do auxílio de profissionais dessa natureza para esclarecer o mistério do desaparecimento de objetos triviais ligados à minha memória, de natureza já tão falha.
Então fica assim: umas perninhas curtas e finas espetadas naquela imensa bola vermelha que cresce a partir dos joelhos. Olhando de repente, é ou não é uma gigantesca maçã do amor que fugiu da barraquinha do parque de diversões? E olha que eu não falei nada da bolsinha de crochê, pendurada no braço por uma alça de mais de um metro, que ficava batendo em tudo e todos, e que servia para abrigar um indefectível celular. De que cor? - Cinza! Vermelho já seria tripudiar. Laranja era a lona plástica que nossa querida maçã trazia nos braços, vá se imaginar para quê.
Genealogia que lhe dá ascendência sobre o comum dos mortais, lhe garante livre trânsito nas mais finas rodas mas também obriga a comportamentos não naturais, em determinadas ocasiões.
Saiu enrolada na toalha e não reconheceu a casa, embora alguns objetos fossem vagamente familiares. Demorou-se um instante a observar cada centímetro, cada vez mais confusa, cada vez mais angustiada. Queria acordar, pois aquilo deveria ser um sonho ruim. Algo que comera, com certeza!
Josias tem delírios de toda natureza a qualquer instante. Imagina as cenas mais pavorosas e sangrentas. Multiplica qualquer sugestão fabulosa, a ponto de quase perder a respiração em meio às crises mais turbulentas. Elfos e gnomos o observam a cada passo. Seu banheiro é povoado por seres dessa natureza, sempre à espreita, com seu aspecto malicioso. Josias não se altera, pois sabe que tudo aquilo é fruto da sua mente e como é ele quem a comanda, não há motivo para preocupação.
Decorrência disso era um outro costume, também muito estranho. Tenho testemunhas que comprovam o que vou dizer: quem recebia uma visita, tempos depois, pagava a visita, visitando, por sua vez, quem os havia visitado. Por que eu iria inventar uma coisa dessas, garoto? É verdade! As pessoas visitavam e eram visitadas.
O final de semana começou com a corda toda, já na sexta-feira, quando fui, praticamente, "convocado" para um churrasco que rolava solto no vizinho. Era a comemoração de final de ano para os "excluídos da confraria". Quem não viria no sábado, veio na sexta-feira. Não que haja qualquer rejeição a qualquer grupo de amigos, mas nem todos ficam à vontade na reunião em que alguns são amigos há mais de 30 anos e outros nasceram nela. Assim, para agradar a gregos e baianos, nossos anfitriões fazem diversas comemorações seguidas. Triste isso, não?
Veio-me uma certa revolta e eu pedi aos deuses para pulverizarem aquele prédio que me impede parte da visão. Pedi-lhes que não esperassem nada de mim em troca, mas que, na sua magnânima condescendência, fizessem desaparecer aqueles fariseus que poluem minha vizinhança.Creio ter ouvido um trovão, não garanto. O certo é que, imediatamente, os ventos rugiram, aceleraram, mudaram de direção e pararam, depois de moldar e mudar as formas das nuvens à minha frente. Observando-as, escandalizado, desisti de vez de qualquer veleidade. Decidi voltar a contar apenas com meus esforços e aprender a conviver com as ofertas que estavam postas, que não mudariam apenas por causa dos meus singelos desejos. Veja, na foto, o que os céus me responderam, por intermédio das macias nuvens daquela clara manhã de primavera na ilha. Agora, por via das dúvidas, observo tudo, caladinho...
- Pois eu adoro! E o meu espelho está de bem comigo, modéstia à parte.
A grande diferença é que este "maledeto" de ontem ficava se rebolando o tempo todo! Era como um dançarino de "break". É isso mesmo, minha senhora. Uma estátua viva agitadíssima. Até parecia sofrer de "dança de São Guido". Se não acredita, veja o filmete. E o pior é que tinha mané que lhe dava dinheiro, mesmo assim.
Como estavam muito vigiados no baile, nada puderam fazer mas, antes de voltar para casa, arrancaram todos os anões de cerâmica que enfeitavam o jardim da praça principal e os colocaram em fila na estrada que liga as duas cidades. Esses anões, originalmente, seriam gnomos, protetores das terras e das matas. Mas a coisa se deturpou de tal forma, que hoje são anões mesmo, e às vezes, aparece até a Branca de Neve! Na fila mencionada, o primeiro deles carregava uma placa explicativa: "Fuchimo de Bento" (fugimos de Bento).
Mal colocou os pés ali e notou uma pessoa lá embaixo, na calçada, pulando e gesticulando para cima. "- Quem será, meu Deus? Será que é comigo?" Pensou. Aí, prestou atenção e reconheceu o Juvenal, seu "competente" porteiro.

um vermelho apaixonante, obra prima, certamente, produzida por hibridismo. Ei-la aqui ao lado, embora a foto não lhe faça completa justiça. E aquela dama solitária no meio da minha mesa de jantar lembrou-me interessantes mulheres.
vender "artesanato", sentados nas esquinas, objeto da caridade culpada de quem passa apressado. E os pobres curumins têm que ficar o dia todo por perto, respirando a fumaça dos escapamentos, sendo observados como pequenos animais de aparência humana, divertindo-se com as migalhas que puderem, em lugar de estar onde seria melhor, no mato, com as outras crianças da tribo, aproveitando a liberdade infantil que, normalmente, já é tão curta.
Hoje o ônibus da minha linha apareceu com uma nova plaquinha, estrategicamente colocada logo acima da cabeça do motorista. Diz ela: "Fale ao motorista somente o essencial".
Panela no fogo, azeite de oliva a esquentar. Cebolas brancas cortadas em rodelas e alho picado, fritos até amolecerem. É hora de colocar o lombinho de porco cortado em cubos, que também é frito. Agora vem o frango e a lula. Finalmente, os camarões graúdos e os mariscos. O arroz é preparado à parte e reunido às carnes no momento de servir.
O cabelo cada vez mais branco e mais ralo. Hora de fazer um balanço do ano? Bobagem! O continuum tempo-espaço desaconselha esse tipo de revisão meramente gregoriana. O melhor é fazer as avaliações o tempo todo.
mesa pendurada no pescoço, carregada das mais variadas guloseimas, chamando a atenção dos espectadores ao chacoalhar caixinhas de "Mentex", a apregoar "Balas, drops!"
Veja, na foto, o que fizeram com a boneca.
- Ai, meu Santo Padim Ciço! Compare como o tecido de uma está liso e o de outra, amassado, ô Mané...
